Nossa Mulher Positiva é Gisele Lasserre, líder visionária e idealizadora da Tech Girls, iniciativa que transforma lixo eletrônico em oportunidade de capacitação e inserção de mulheres em situação de vulnerabilidade social no mercado de tecnologia. Gisele nos conta como sua experiência de enfrentar barreiras profissionais e emocionais a motivou a construir um legado de empoderamento, capacitando mulheres a reescreverem suas histórias e a encontrarem um ambiente alegre, criativo e provocador que as inspira a um novo despertar, com a visão de um futuro de equidade plena na tecnologia.
Minha jornada profissional começou cedo, aos 12 anos, em atividades administrativas com meu pai em Curitiba. Aos 21, já estava em São Paulo, assumindo a Gerência de Marketing de uma importante empresa de saúde, onde construí a maior parte da minha carreira. Contudo, perto dos 40, enfrentei um desafio inesperado: o etarismo e a rejeição de uma equipe de desenvolvedores que me via como "não técnica". Diante da iminente demissão, decidi transformar a adversidade em oportunidade. Mergulhei em um novo curso superior presencial em Tecnologia da Informação. Essa guinada me levou a pedir demissão, retornar à minha Curitiba natal e me reinventar como programadora de software remota. Na capital paranaense, além de atuar em TI para uma instituição financeira, comecei a dedicar-me a trabalhos sociais, ensinando programação a mulheres da periferia. Foi essa experiência que acendeu a chama e me motivou a fundar a Tech Girls.
Somos uma instituição sem fins lucrativos com uma missão clara: transformar vidas através da educação em TI para mulheres de baixa renda, oferecendo cursos profissionalizantes totalmente gratuitos. Nossa abordagem é rigorosamente profissional, pautada em Data Analytics e na mensuração de indicadores de impacto socioeconômico e ambiental. Para sustentar essa missão, geramos receita através da logística reversa de resíduos eletrônicos para empresas e captamos recursos via patrocínios de parceiros que buscam talentos qualificados entre nossas formandas, além de editais de fomento público. Assim, criamos um ciclo virtuoso de impacto social e ambiental.
Minha jornada de 40 anos foi marcada por um confronto direto com o etarismo. Mesmo com um currículo robusto em Marketing e Comunicação, o mercado e, ironicamente, minha própria equipe de desenvolvedores, me viam como "não técnica" e desatualizada. Diante da iminente demissão, decidi transformar a adversidade em oportunidade: iniciei uma nova graduação em Tecnologia da Informação. Essa decisão me levou a deixar a empresa, voltar para Curitiba e abraçar a carreira de programadora. Na capital paranaense, além de atuar no setor financeiro, descobri um novo propósito ao ensinar programação a mulheres da periferia, experiência que foi o catalisador para a fundação da Tech Girls.
A vida de uma empreendedora social é uma teia complexa onde o profissional e o pessoal se entrelaçam, exigindo um envolvimento familiar fora do comum. Minhas economias, fruto de anos no mundo corporativo, foram o combustível inicial da Tech Girls, um investimento que minha família via com apreensão, temendo pelo meu futuro. A realidade é que, apesar do crescente discurso ESG, a materialização de aportes financeiros para projetos de impacto social ainda é um desafio, tornando o apoio familiar não apenas valioso, mas essencial. Para concretizar o sonho e reduzir custos, a garagem dos meus pais se tornou, por muitos anos, nosso centro de logística para doações de eletrônicos, que eram recuperados e entregues às alunas como prêmio. Meu marido, com sua própria carreira no setor financeiro, dedica seus fins de semana para montar laboratórios e instalar computadores em comunidades carentes por diversas cidades do Brasil. Essa resiliência e o apoio incondicional da minha família são a base da Tech Girls.
Almejo um ecossistema tecnológico onde a inclusão feminina seja orgânica e plena, sem a necessidade de programas dedicados à causa "Mulheres & Tecnologia". Que a representatividade seja naturalmente equalitária, especialmente nas posições de liderança em TI.
É um privilégio reescrever a história e empoderar mulheres em situações de vulnerabilidade: vítimas de violência doméstica, aquelas em transição de carreira, e até pacientes oncológicas que, com a coragem de quem abraça o presente, encontram em nossos cursos um espaço de alegria, criatividade e provocação para um novo despertar. Para mim, é a forma de transformar o que foi uma barreira profissional e emocional em minha vida em um caminho de superação para outras.
Livro: "Mulheres que correm com os Lobos" de Clarissa Estes.
Filme: "Dama de Ferro" (Iron Lady, 2011).
Mulher: Minha admiração vai para Margaret Thatcher. Em 1979, sua ascensão ao cargo de primeira-ministra quebrou uma barreira histórica de gênero, provando que mulheres podiam alcançar os mais altos escalões do poder – algo impensável em muitos países na época. Ela se tornou um ícone global de força e competência feminina, inspirando gerações a buscar a autossuficiência e a liderança por mérito. Sua própria trajetória, de origem modesta ao topo, é um testemunho de sua crença inabalável na meritocracia.