Clemilda Thomé

Nossa Mulher Positiva é a Dra. Clemilda Thomé, uma empresária e referência no setor de saúde e odontologia no Brasil. Com formação em Odontologia e uma trajetória marcada por visão empreendedora e liderança, ela participou da criação e expansão da Neodent, empresa que transformou o acesso a implantes dentários no país e se tornou uma das maiores do segmento.
Atualmente, Clemilda atua na DSS Holding, grupo que reúne negócios voltados à saúde, bem-estar e inovação, mantendo seu compromisso com o desenvolvimento do setor odontológico e com a formação de profissionais. Sua trajetória é reconhecida pela capacidade de unir sensibilidade, gestão e propósito em iniciativas que geram impacto real.

1. Como começou a sua carreira?

Minha carreira começou cedo. Quando eu tinha 10 anos, um incêndio destruiu grande parte do interior do Paraná, incluindo as terras onde meus pais trabalhavam. Sem alternativas, eles tomaram uma decisão difícil e corajosa: dividir os filhos para que cada um tivesse a chance de recomeçar. Éramos 15 irmãos. Seis de nós vieram para Curitiba, enquanto os demais foram estudar em escolas nas regiões próximas às terras dos meus pais. Chegamos à capital com muito pouco, mas com uma certeza: se quiséssemos algo, teríamos que construir. Comecei ajudando nas tarefas de casa, mas logo fui trabalhar na Gazeta do Povo como auxiliar de secretária. Ali, ainda menina, aprendi sobre responsabilidade, pontualidade, hierarquia e, principalmente, sobre pessoas. Nunca mais parei de trabalhar. Cada função simples, cada salário curto, cada porta que se abria me ensinava algo valioso: caráter, resiliência e coragem para seguir em frente — sempre aprendendo, sempre evoluindo, sem preguiça. Acredito que começar cedo foi o que me moldou. Não apenas como empresária, mas como ser humano. Comecei do zero — mas com valores sólidos. E isso fez toda a diferença.

2. Como é formatado o modelo de negócios da Neodent?

A Neodent nasceu de um propósito profundo: devolver saúde para as pessoas. No nosso consultório, víamos diariamente pacientes que precisavam de implantes dentários, mas não podiam pagar. Naquela época, só existiam implantes importados, caros, inacessíveis e distantes da realidade da maioria dos brasileiros. Foi aí que tomamos a decisão que mudou tudo: se o mercado não oferecia soluções acessíveis, nós iríamos criá-las. Começamos a estudar, desenhar, testar, fabricar e produzir implantes com a mesma qualidade dos importados, mas com um diferencial decisivo: custo justo, produção nacional e impacto social real. Nosso modelo de negócio sempre teve 3 pilares fundamentais:
Acessibilidade — saúde não pode ser privilégio.
Qualidade — porque cuidar da saúde exige excelência em cada detalhe.
Propósito — porque nunca foi sobre dinheiro e sim sobre devolver saúde às pessoas.
Nós não queríamos só vender implantes. Queríamos devolver a autoestima, transformar vidas, criar possibilidades. E foi por isso que a Neodent se tornou gigante: porque não nasceu para dar lucro — nasceu para dar solução. O lucro veio depois — e veio grande. Mas sempre como consequência do impacto positivo que geramos. Hoje, olhar para a Neodent líder mundial no seu segmento é olhar para um sonho coletivo, construído com verdade, trabalho e propósito. Uma prova viva de que negócios feitos com alma, constância e coragem geram resultado e geram legado.

3. Qual foi o momento mais difícil da sua carreira?

Tive muitos desafios, mas existe um que marcou minha vida — e também a história da Neodent. Eu estava em uma sala de reunião, única mulher entre doze homens — advogados, executivos, investidores e até meu ex-marido. Todos com contratos prontos para assinar a venda da Neodent. Era uma proposta excelente, financeiramente falando. Naquele momento, silenciosamente, olhei para tudo e senti algo muito forte: não era a hora. Respirei fundo e disse: “Eu não vou vender.” Foi desconfortável, foi tenso, foi desafiador. Mas foi verdadeiro. Eu não queria vender a empresa por dinheiro. Eu queria vender para alguém que entendesse o nosso propósito: levar a Neodent para o mundo. Algum tempo depois, a Straumann veio com uma proposta mais alinhada, mais justa e mais coerente com o futuro que eu via. Hoje, a Neodent é a número 1 do mundo no seu segmento. E eu entendi: às vezes, a maior coragem não é dizer “sim” — é sustentar um “não”. E no final, eu estava certa.

4. Como você equilibra vida pessoal e vida corporativa?

Eu não acredito em equilíbrio sem disciplina. Equilíbrio não é algo que você encontra. É algo que você constrói — todos os dias, com escolhas consistentes. A minha rotina tem pilares que eu respeito com seriedade:
Alimentação — porque a saúde começa no prato.
Movimento — porque o corpo foi feito para se mover.
Espiritualidade — porque a fé é o que sustenta.
Foco — porque propósito sem direção se perde. Eu pratico atividade física todos os dias. Não importa onde eu esteja: musculação, aeróbico, beach tennis. Isso me mantém com energia e vitalidade. E é por isso que, aos 70 anos, eu sigo com a mesma disposição de quem ainda está começando. Também aprendi a valorizar o silêncio, a oração, o tempo com a família e o descanso da mente. Sucesso não é viver correndo. Sucesso é viver inteira, no corpo, na mente, na fé e no propósito. Quando você cuida dessas áreas, o equilíbrio deixa de ser esforço. Ele se torna consequência.

5. Qual o seu maior sonho?

Sou uma mulher realizada, mas não sou uma mulher parada. Apesar de tantas conquistas, sempre digo: “ainda não cheguei lá, estou só começando.” Hoje, meu maior sonho não é sobre mim. É sobre o que a minha história pode despertar em outras pessoas. Quero que o meu livro, Afortunada, seja semente, não troféu. Que ele chegue nas mãos de quem precisa de coragem para dar o primeiro passo, ou aquele passo que falta. Minha missão é simples, mas profunda: inspirar quem também veio do zero a acreditar que pode vencer com propósito, trabalho e verdade. Quero que as pessoas olhem para mim e pensem: “Se ela conseguiu, eu também posso.” E podem. Porque o sucesso não depende de sorte. Depende de atitude, fé, constância e disposição de fazer o trabalho que ninguém vê, todos os dias.

6. Qual a sua maior conquista?

A minha família. Essa é, sem dúvida, a minha maior conquista. Meu marido, meus filhos e meus netos são o meu maior patrimônio — não aquele que se mede em números, mas o que se sente no coração. Eles são o meu orgulho mais bonito e a minha razão diária para continuar sonhando, trabalhando e vivendo com propósito. Construir empresas é algo grandioso. Mas construir vínculos eternos é o que realmente dá sentido à vida. O verdadeiro legado não está no que a gente tem, mas no que a gente deixa no coração de quem caminha ao nosso lado. O sucesso só vale a pena quando você tem para quem voltar. Quando existe acolhimento, afeto, respeito, cumplicidade. E isso, nenhum prêmio ou resultado substitui. A vida me deu muito mais do que conquistas profissionais: me deu uma família que caminha comigo, celebra comigo e me faz querer ser melhor todos os dias. É por eles — e com eles — que sigo em frente, sempre.

7. Livro, filme e mulher que admira

Admiro todas as mulheres que têm atitude, que empreendem sem abrir mão da família e dos valores. Gosto muito da série “The Chosen”, que fala sobre fé e propósito — dois pilares da minha vida. E o livro que indico é “Afortunada”, uma obra que me inspira profundamente e reflete sobre coragem, superação e propósito.