Simone Quintas

Nossa Mulher Positiva é Simone Quintas, jornalista e empreendedora cultural que transformou sua paixão pelo design brasileiro em propósito. Cofundadora da Semana Criativa de Tiradentes, ela acredita na força das conexões entre o artesanal e o contemporâneo, e mostra que criatividade e propósito são capazes de sustentar até os caminhos mais desafiadores.

1. Como começou a sua carreira? 

Minha trajetória começou no jornalismo. Trabalhei muitos anos como repórter, editora e até diretora de redação em rádio, assessoria e revista, onde acabei me especializando em design e arquitetura. Foi nesse universo que percebi a potência do design brasileiro e a força das histórias por trás dos objetos. Essa percepção me levou a querer atuar mais diretamente na conexão entre o design e o fazer manual, o que acabou desaguando na criação da Semana Criativa de Tiradentes, em 2017.

2. Como é formatado o modelo de negócios da Semana Criativa?

A Semana Criativa é um festival independente, construído com base em parcerias e patrocínios de marcas, instituições e empresas que acreditam no valor da cultura, do design e do artesanato brasileiro. O evento é quase 100% gratuito (cobramos somente as oficinas e festas) e ocupa os espaços privados e públicos de Tiradentes. O modelo combina ações de visibilidade para marcas, como ativações, mostras e experiências, com um trabalho consistente de impacto social, realizado ao longo do ano com comunidades artesãs e designers convidados. É um ecossistema vivo, que vai muito além dos quatro dias de evento: temos também a Escola da Semana e a Loja da Semana, que fortalecem essa rede de criação, formação e circulação de produtos.

3. Qual foi o momento mais difícil da sua carreira?

Sem dúvida, manter um projeto independente como a Semana Criativa de pé, ano após ano, é o maior desafio. No início, o difícil foi fazer o festival acontecer — convencer pessoas e marcas de que um evento cujo tema central é o artesanato e a cultura brasileira, realizado em uma cidade pequena e de acesso limitado, tinha potencial para crescer e inspirar. Depois, veio o aprendizado de “vender”, de transformar propósito em proposta concreta. Já enfrentamos pandemia, cortes e perdas de patrocínios de última hora, além do desafio permanente de conciliar sonhos com orçamentos possíveis. Mas é justamente nesses momentos que a criatividade e a coletividade mostram sua força. Cada edição realizada é, para mim, uma vitória sobre as adversidades — uma prova de que quando há verdade e propósito, o caminho se sustenta.

 

4. Como você equilibra vida pessoal e vida empreendedora?

Nossa! A vida de empreendedora é muito mais difícil do que a corporativa! Ainda mais quando se começa sem investimento. Só eu, meu sócio, Junior Guimarães e muita vontade de fazer acontecer. Não tem muito equilíbrio até a coisa virar, a verdade é essa. Como empreendedora cultural é difícil separar vida pessoal e profissional, especialmente porque meu trabalho é também meu propósito. A inspiração, a ideia vem de todos os lados, todos os dias da semana e em qualquer lugar que eu esteja. O que aprendi, e tento exercitar, foi a respeitar os ciclos: há momentos de entrega total e momentos em que é preciso focar mais na família. Tenho a sorte de ter um companheiro e filhos que entendem e participam, de alguma forma, desse processo criativo. E talvez esse seja o maior equilíbrio: quando o trabalho e a vida caminham na mesma direção.

5. Qual seu maior sonho?

Meu sonho é que a Semana Criativa se torne um legado permanente e que as pessoas continuem indo a Tiradentes para aprender, trocar e se inspirar, mesmo quando eu não estiver mais à frente. Que as imersões com artesãos se multipliquem, que a Escola da Semana floresça e que o fazer manual brasileiro siga sendo valorizado como um patrimônio vivo.

6. Qual sua maior conquista?

Ver o festival acontecer longe de um grande centro e, claro, transformar vidas. Já vi artesãos que nunca tinham saído de suas comunidades venderem peças para o mundo, designers criarem vínculos duradouros com o território, jovens escolherem novas carreiras após uma vivência na Semana. A minha maior conquista é saber que a Semana Criativa não é só um evento, mas um movimento que transforma pessoas, lugares e perspectivas.

7. Livro, filme e mulher que você admira

Acho essas perguntas sempre muito difíceis...

 Livro: Cabeça de Santo, de Socorro Acioli. Li este livro recentemente e ele me prendeu de um jeito! Uma mistura de fé, sonho, realidade... Ele te leva ao Nordeste...

Filme: Central do Brasil, de Walter Salles: um filme que me toca profundamente pelo olhar sensível sobre o outro. Ele mostra que ajudar não é sobre ter muito a oferecer, mas sobre oferecer o que se tem. Às vezes, é escrever uma carta, ouvir alguém, estar presente. Falta-nos esse entendimento de que há muitas formas de cuidar e transformar.

Mulher que admiro: sem dúvida a arquiteta pernambucana Janete Costa. Janete foi uma mulher à frente do seu tempo: nordestina, moderna e profundamente brasileira. Ela entendeu que o fazer manual não era algo menor, mas uma das maiores expressões da nossa cultura. Em seus projetos e curadorias, trouxe o artesanato para o devido lugar, valorizando os saberes populares com respeito, sofisticação e afeto. Seu olhar generoso e sua capacidade de “interferir sem ferir” continuam sendo uma inspiração para mim e para a Semana Criativa de Tiradentes, que também busca celebrar o diálogo entre o artesanal e o contemporâneo.