Dirlene Silva - Mulheres Positivas

Dirlene Silva

Escrito por Kizzy Bortolo 

Mulher, negra, economista de Canoas, no Rio Grande do Sul, e uma das 25 pessoas mais influentes, hoje, do LinkedIn. Essa é a história da gaúcha Dirlene Silva, 52 anos, que integra a lista ‘25 Top Voices’ da rede social, um reconhecimento que Ihe dá motivação para seguir concretizando os seus objetivos. Ela enfrentou rótulos e preconceitos pela sua infância pobre e pela cor de pele, mas teve sua vida transformada pela educação e pelo seu senso de protagonismo. Hoje, Dirlene ajuda outras pessoas a seguirem o mesmo propósito e ensina sobre educação financeira. Ela, que teve uma infância humilde e com pouquíssimas perspectivas, era chamada de "filha da empregada" e durante a sua adolescência ganhou o rótulo de "filha da lixeira", uma vez que sua mãe era gari. Contudo, diz ter tido sua vida transformada pelos livros, pelos estudos e pelos seus professores, pois através deles pôde despertar seu senso de protagonismo ao entender que poderia ir além dos rótulos e preconceitos que os outros lhe impunham.

 “Nasci e fui criada em Canoas, cidade da região metropolitana de Porto Alegre (que fica a 15 quilômetros da capital). Sou a mais nova de três filhas. Quando eu nasci em 1974, minha irmã mais velha, Marcia, já tinha seis anos e a irmã do meio, Marta, tinha cinco. Minha mãe, Vera, teve a coragem e a ousadia de se separar em meados de 1977, vindo a se divorciar no papel dois anos depois, em 1979 (lembrando que a lei do divórcio é de 1977!) E, assim, ela criou sozinha suas três filhas com muita garra, luta, valores e amor, o que, ironicamente, ela pouco recebeu. Minha mãe era filha de mãe solteira e aos sete anos se tornou órfã, sendo criada por um padrasto e uma madrasta. 

Após o divórcio, minha mãe que já trabalhava muito, passou a trabalhar ainda mais, dia e noite, para nos sustentar. E, assim, a minha educação foi baseada no mundo feminino, visto que fui criada por três mulheres. Na verdade, fui criada também por duas crianças (minhas irmãs) e cresci sendo a boneca viva delas.

Entrei na escola aos sete anos em 1981 e, apesar de ser tratada com indiferença por muitos e até mesmo pela minha professora, eu adorava estudar. Era comum ver algumas crianças brincando no pátio e eu não poder brincar com elas. Algumas me diziam: ‘Tu não pode brincar conosco. Tu é preta! Tem cabelo duro’! Isso sempre me marcou e me machucava demais. Nas datas comemorativas, a escola enviava bilhetes aos pais pedindo dinheiro. Minha mãe respondia de forma nem sempre muito simpática ou amistosa, que não tínhamos dinheiro nem para comprar pão e que não poderíamos contribuir. Me lembro de me sentir muito feia e inferir por ser ‘diferente’ e também muito envergonhada por não ter dinheiro como os outros coleguinhas para contribuir com as tais festinhas da escola. 

Minhas irmãs começaram a trabalhar cedo para ajudar em casa. Ambas trabalhavam como doméstica desde os 13 anos de idade. Então, eu já ficava sozinha em casa desde os meus sete anos de idade. Sem ter muito o que fazer, visto que vivia em uma vila muito podre que tinha chão batido, mais conhecida como ‘barro preto’, sem ter acesso a energia elétrica, água encanada, banheiro ou saneamento básico e tinha pouquíssimos brinquedos doados, fez com que eu me tornasse ainda mais apegada aos estudos. Eu estudava sem parar. Era só o que tinha a fazer e eu amava estudar, de fato. Ainda não sabia o que aquilo iria me proporcionar ou muito menos onde poderia me levar. Apenas amava. E estudava muito! 

Em 1983, minha mãe foi demitida da casa da família em que trabalhava há anos e uma vizinha nossa, que era gari na prefeitura da cidade, disse a ela que a prefeitura estava contratando pessoas. Assim, minha mãe começou a trabalhar como gari, varrendo as ruas. Logo, eu que já havia passado a infância inteirinha sendo chamada de a filha da empregada’, naquele momento ganhei um outro título e passei a ser chamada de ‘a filha da lixeira’. 

Nossa vida melhorou um pouco financeiramente, pois o salário de gari era melhor que o de doméstica. Entretanto, o preconceito social era ainda muito maior. No final de 1984, quando eu estava com 10 anos, minha mãe, guerreira e visionária como sempre, vislumbrou que teríamos um futuro melhor deixando de morar na vila. Então, alugou uma casa de um quarto, onde todas nós dormíamos no mesmo cômodo, mas estávamos felizes da vida por morarmos em uma rua asfaltada, ter um endereço onde as cartas chegavam, ter energia elétrica, poder abrir a torneira e ver a água cair da torneira, ter um banheiro dentro de casa e, principalmente, ter um chuveiro! Antes, não tínhamos nada disso. Então, era praticamente o paraíso! Na casa nova vivi muitos fatos marcantes! Me emocionei ao ver a primeira ‘Miss Brasil’ negra, a modelo Deise Nunes em 1987, conheci a rádio FM (ouvia sempre!) e tinha um gosto incomum para as adolescentes da época. Um dos meus programadas preferidos era ouvir os noticiários em que as principais notícias eram os problemas socioeconômicos do Brasil, como a dívida externa e a inflação que chegou a bater 80% ao mês, na época, estes eram os assuntos campeões e que eu amava ouvir, estar por dentro. 

Ainda na mesma época, aos 12 anos de idade, tive minha vida transformada ao ser contemplada com uma bolsa de estudos em uma das melhores escolas particulares da cidade. Este fato fez com que a paixão que eu já nutria pelos estudos, se transformasse de vez em um grande amor! Na escola particular fui alvo de preconceito racial e social nível ‘hard’. Nunca sofri tanto! Para se ter uma ideia, todas as manhãs para chegar até a sala de aula, enfrentava um grupinho de meninos que reproduziam sons de macaco, enquanto eu passava cabisbaixa. Ainda assim, o amor que tinha pelos estudos e pelos poucos amigos que conquistei lá e por aquela escola que me apresentou um mundo de possibilidades tão diferente a realidade que eu estava acostumada, me dava ainda mais forças para enfrentar o bullying de cada dia. A timidez também me fazia sofrer calada. Eu vivia quieta, calada e de cabeça baixa. 

Com a lei do concurso público instaurado com a constituição de 1988, minha mãe viu uma oportunidade de ‘largar a vassoura’ que era como ela chamava a profissão de gari e voltou a estudar a fim de fazer o concurso público para Guarda Municipal, profissão que ela exerceu até se aposentar há 10 anos. Para mim, além de ver minha mãe feliz e tendo um trabalho menos pesado e sacrificante, significou também o adeus ao rótulo de ‘filha da lixeira’! Ufa! Minha mãe sempre foi meu maior orgulho! 

Naquela época, tempo era um dos poucos recursos abundantes em minha vida. Era o que eu tinha de sobra. Então, estudava pela manhã e à tarde tinha que voltar à escola para as aulas de educação física. Logicamente, eu não tinha dinheiro para ir em casa e voltar e, mesmo que tivesse, a escola ficava no centro e eu morava no bairro mais afastado da cidade, na periferia. Então, incentivada pelos professores, passei a frequentar a biblioteca nos dias da educação física. Eu saía da aula da parte da manhã e ia direto para o trabalho da minha mãe. Lá, dividia com ela a mesma marmita e depois partia rumo à biblioteca da escola, permanecendo por lá até a hora da minha aula de educação física. Em uma de minhas tardes estudando na biblioteca, me deparei com livros de psicologia, hoje em dia chamados de autoajuda. Lembro que o primeiro livro do gênero que li foi o ‘Poder do Subconsciente’, de Joseph Murphy. Li todos os livros deste autor que haviam na biblioteca e muitos os outros do gênero. Adotei Joseph Murphy como meu psicólogo de plantão (aliás, o chamo assim até hoje). A cada livro que eu lia, era como se uma luz se acendesse em minha mente. Aos poucos fui colocando em prática os aprendizados e, assim, me transformei. Da menina insegura, medrosa e cabisbaixa, me tornei mais autoconfiante e corajosa. Ergui a cabeça! Quando passava pelo grupo de garotos reproduzindo sons de macaco ao me ver, levantava a cabeça e os cumprimentava educadamente. Certa vez, os cumprimentei e perguntei porque eles faziam sons de macaco? Ninguém me respondeu, claro. Além disso, quando me chamam de negra, lhes respondia: ‘Obrigada, eu sei! E tu é branco, né? Não é preciso me lembrar que eu sou negra! Tu gostarias que eu te chamasse o tempo todo de branco?’ A partir da minha mudança de postura, eles não me importunaram mais e passei a descobrir que autoaceitação salva e que autoconhecimento é a mãe do conhecimento. Ou seja, jamais posso mudar o outro, mas posso mudar a maneira com que eu lido com outro.

Há quem diga que livros de autoajuda não ajudam ninguém, outros ainda dizem que estes livros só ajudam a editora e o autor a enriquecerem. Respeito todas opiniões, mas penso que, na verdade, qualquer coisa ajuda quem quer ser ajudado e eu realmente estava disposta a me ajudar e a mudar minha vida! E foi assim que deixei de ter vergonha de ser quem eu era, de onde eu vinha, da minha história, do bairro onde morava, da casa em que morava e passei a agradecer e também ter orgulho da minha família, da minha mãe, da minha trajetória, da minha história, da minha cor de pele e de mim mesma, me tornando, assim, a protagonista da minha própria vida aos 15 anos de idade! 

Quando conclui o ensino fundamental, já sabia que para permanecer estudando eu teria que trabalhar e, por isso, optei por fazer um curso técnico para ter uma profissão. Orientada pelos meus professores da época, optei por fazer o curso técnico em contabilidade. No curso tive uma disciplina de economia e aí foi amor à primeira vista! Pela primeira vez pude entender o que falavam nos noticiários do rádio e da TV. Na hora já entendi e decidi que economista seria a minha profissão. Saí da sala de aula com esta convicção.

Quando concluí o ensino médio (o segundo grau, naquela época), já trabalhava em tempo integral. Prestei vestibular na universidade federal, não sendo aprovada por pouco. Fiquei triste, mas não desisti. No ano seguinte, me matriculei em um cursinho e fiz uma triste constatação: meus colegas estudavam os três turnos, sendo de manhã e à tarde na escola e à noite no cursinho. Sendo que eu trabalhava o dia inteiro e tinha somente à noite para ir ao cursinho pré-vestibular. Fiz as provas do vestibular, fui aprovada, mas não classifiquei. Outra frustração! Por entender que a concorrência era desleal demais, decidi, então, mudar a rota, juntar meus trocados e ir para uma universidade particular.

Quando, finalmente, entrei na faculdade, muitos riram de mim. Fui motivo de chacotas e muitas piadas! Ouvia muitas vezes e de muitas pessoas próximas que aquilo não era para mim. Mas, segui em frente! Não desisti! 

Eu fazia uma ou duas disciplinas e comemorava quando conseguia cursar três disciplinas ou quando podia terminar um semestre e me matricular no seguinte, pois era comum trancar o curso por não ter grana ora pagar. Reprovar não era uma opção para mim, então nunca reprovei. Ao todo, foram 10 anos na faculdade e, finalmente, no dia 24 de janeiro de 2004, realizei o sonho da minha vida de me formar em economia! Me tornei economista! Só Deus sabe tudo que passei para pegar esse tão sonhado diploma nas mãos. 

Depois de graduada, realizei vários outros sonhos, como o de levar a minha mãe ao Teatro ‘São Pedro’, local que ela fazia faxina no passado, depois comprei um apartamento na praia, pude também passear de carro com a minha família pela Serra Gaúcha, conhecemos Porto Seguro, Salvador e viajamos muito! Vivi, o que eu chamo de 50 anos em cinco tamanho foi o progresso da minha vida! Troquei de trabalho três vezes, sempre com o salário superior ao trabalho anterior. Comprei meu primeiro carro, meu apartamento, estudei idiomas (inglês e espanhol), cursei ainda dois MBA’s e logo cheguei ao mestrado, um outro sonho da minha vida! 

Quando comprei meu apartamento, dando mais da metade de entrada e financiando o restante em 15 anos (o qual paguei em apenas cinco), já possuía dois MBA’s. Obviamente, queria estudar mais e mais. Mas, estudar o que? Achava que fazer outro MBA não faria diferença no meu currículo. Então, me informei e o mestrado me pareceu uma boa opção. Me inscrevi, fiz a seleção, pré-projeto, entrevista e, em abril de 2011, lá estava eu na primeira turma do primeiro programa de Mestrado Profissional com dupla titulação do Brasil. E de novo estava em um ambiente que parecia não ser para mim. No estacionamento da universidade, por exemplo, só tinha carrões ao lado do meu carro, ‘corsinha’ velho, de duas portas, ano 1999. Mas, nada me incomodava e seguia em frente! No mestrado tínhamos aulas com professores brasileiros e franceses que estavam aqui no Brasil e fazia parte do programa a ida dos estudantes para a França. Assim, fiz minha primeira viagem internacional na vida. Fui para a Europa. Cheguei à cidade de Poitiers, que fica a mais de 340 quilômetros de Paris e é conhecida por ter sediado o julgamento da Joana D’Arc. Lá, estudava de manhã até à noite na Université de Poitiers que foi fundada no ano 1431, ou seja, é mais antiga que o nosso país. Minha mãe ficou no Brasil e a cada dia mais tinha mais orgulho de mim e de onde eu cheguei através dos meus estudos! 

Nunca havia sonhado ir à Paris, mas estando na França é quase impossível não ter vontade de conhecer ‘a cidade luz’, a mais famosa e visitada cidade do mundo. Então, em um final de semana peguei o trem e cheguei em Paris. Ainda me lembro que quando desembarquei na estação ‘Montparnasse’ e logo avistei a Torre Eiffelum filme passou diante dos olhos! Revivi toda a minha trajetória e a minha história. Relembrei toda a humilhação e o racismo que sofri até chegar ali. Naquele momento, me dei conta do quanto minha vida tinha sido transformada através da educação e adaptei uma fala do inesquecível filme Titanic: ‘Os livros me salvaram de todas as maneiras que uma mulher podes ser salva’! Assim também aconteceu comigo! 

E, acima de tudo, entendi que eu estar ali, significava que a ‘filha da lixeira e da faxineira’ estava em Paris correndo atrás dos seus sonhos, estudando, fazendo mestrado na França, evoluindo e vencendo na vida! 

Ganhei o título de ‘Linkedin Top Voices 2020’, e que muito me orgulha por ter recebido esse prêmio, que é uma lista que premia os melhores perfis criadores de conteúdos nesta plataforma corporativa. Hoje sou uma das 25 pessoas mais influentes do LinkedIn, um reconhecimento que me dá uma super motivação para seguir correndo atrás e concretizando os meus objetivos de vida e profissionais. 

Trabalho como economista, sou mestre em Gestão e Negócios, fundei uma empresa de estratégias e inteligência financeira para ajudar outras pessoas a lidar com seu dinheiro e finanças. Meu propósito é desmistificar a economia e finanças através da prestação de serviços de consultoria, coach e mentoria. Também sou professora e embaixadora na ‘Escola Conquer’, embaixadora do ‘Clube Mulheres de Negócios de Portugal’, além de palestrante e conselheira no projeto ‘Injeção de Autoestima’. 

Refletindo a respeito e procurando uma maneira de defender que o investimento em educação representa um ótimo negócio, resolvi me utilizar da intensidade das palavras e do poder da escrita, pois acredito que as histórias que moram dentro de nós podem impactar a vida de muitas outras pessoas. Minha intenção é expressar a essência do que eu sou, demonstrar como a minha vida foi impactada e transformada por meio do investimento em educação. Sou apenas uma dentre tantas histórias de superação de filhas de mães guerreiras anônimas que há neste mundão. Contudo, é sempre importante retratar exemplos que demostram que, independente de onde viemos, podemos sim chegar onde almejamos! Com muita luta e anos de estudos, consegui chegar onde mais desejava. 

Tenho muito orgulho da minha trajetória: a infância na periferia, a mãe que foi gari, o racismo e o preconceito que enfrentei, a paixão pelos estudos, os dez anos até conseguir me formar em Economia, o mestrado na França, a carreira executiva, o empreendedorismo e a decisão de transformar conhecimento em propósito.

Fundei a minha empresa, a “DS Estratégias”, com o propósito de desmistificar a economia e as finanças. Certa vez, o economista-chefe de um grande banco nacional me convidou para participar de um evento ao lado dele. Marcamos uma reunião on-line para conversar sobre o evento e, naquele encontro, eu chorei. Ele logo perguntou se eu estava bem. Eu estava emocionada porque, anos antes, havia sido motivo de piada por sonhar em ser economista. Eu sequer havia conseguido uma vaga de estágio no banco onde ele trabalhava. E, naquele momento, eu estava ali, anos depois, economista, conversando com o economista-chefe daquela instituição e sendo convidada por ele para dividir um palco.

Segui trabalhando. Continuei estudando. Continuei escrevendo. Continuei falando sobre economia e finanças de uma maneira descomplicada e que fez muito sentido para mim: aproximando esses temas da vida real. E , com isso, os reconhecimentos começaram a chegar. Recebi o convite para assinar uma coluna sobre finanças em um banco. Fui escolhida pela revista “WIRED” como uma das 50 pessoas mais criativas do Brasil. Que emoção! Quando recebi a notícia, me senti muito feliz e honrada. Mas o impacto maior aconteceu quando vi meu nome naquela revista ao lado de pessoas que eu admirava, como os atores Lázaro Ramos, Elisa Lucinda, Paulo Vieira, Tatá Werneck e a cantora Glória Groove.

Recebi, também o troféu “Business Woman”, da organização internacional “The Norns Awards”. Minha história também passou a fazer parte do acervo do “Museu da Pessoa”, integrando a exposição “Diversidade no Mercado Financeiro”. Ali existe uma frase que resume muito do que sinto ao olhar para trás: “Eu sou maior que meus sonhos.”

Há dois anos, em 2023, meu nome apareceu entre as dez mulheres reconhecidas pelo Banco PAN por revolucionarem o universo das finanças, ao lado de nomes como Nathalia Arcuri, Nath Finanças, Betina Roxo e outras mulheres que tanto admiro. E também passei a figurar, desde 2023, entre as 20 pessoas mais influentes do LinkedIn no Prêmio iBest, por três anos consecutivos: em 2023, 2024 e 2025. E uma das conquistas recentes que mais me emocionou foi o convite para sair da plateia e subir ao palco do TEDx. Durante muitos anos, eu assisti ao TEDx como espectadora. Até que fui convidada a ocupar aquele palco. Meu ‘talk’ se chamou: “Você pode ter os sonhos que quiser. Nossos sonhos são livres. ”Naquele palco, eu não queria contar apenas que havia conseguido e sim, queria dizer para outras pessoas que elas também tinham o direito de sonhar, assim como eu. Para mim, sobretudo, a grande questão nunca foi apenas superar a pobreza ou conquistar uma carreira, foi realmente não permitir que a minha origem se transformasse em sentença. Origem é nosso ponto de partida. Conta a nossa história. Mas não pode definir o nosso destino. Nunca! 

E a minha trajetória profissional também ganhou novos caminhos. De executiva, tornei-me empreendedora. Depois, professora, palestrante, colunista, mentora, conselheira, curadora de conteúdo, mestre de cerimônias, apresentadora de TV, embaixadora e escritora. Ufa! Muitas atribuições que só me acrescentam e me empoderam como mulher! Me tornei uma profissional de muitas carreiras. Não porque eu tenha planejado colecionar títulos, mas porque fui percebendo que poderia usar diferentes ferramentas para alcançar pessoas diferentes. Passei a ocupar espaços de debate sobre economia, finanças, educação, diversidade, futuro, liderança e desenvolvimento. Passei também a integrar como conselheira, o “Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável” e lá na “Comissão de Assuntos Econômicos”, lidero o eixo de educação financeira. Também tive a oportunidade e o privilégio de contribuir em espaços institucionais e de discussão sobre o futuro do país, levando para essas conversas uma perspectiva que considero fundamental: economia não é apenas sobre números. Economia é, sobretudo, pessoas.

Essa frase resume muito do que construí até aqui. Porque, quando comecei a falar sobre educação financeira, percebi que não queria ensinar apenas pessoas a fazer contas. Queria ajudá-las a compreender que dinheiro está relacionado a escolhas, oportunidades, segurança, sonhos, autonomia e, muitas vezes, à própria possibilidade de escrever uma história diferente.

E este mês, acabo de lançar meu primeiro livro: “Do Lixo a Paris: minha jornada de filha da Lixeira a referência em educação financeira” e o levarei para ser lançado na Bienal do Livro de São Paulo. Nesta obra conto a minha história, minha trajetória de vida, mas não é apenas uma biografia. É o meu legado! Esta leitura fala sobre origem, escolhas, oportunidades, educação, dinheiro, sonhos e, sobretudo, sobre a nossa relação com aquilo que o dinheiro pode ou não fazer por nós.” 

Kizzy Bortolo — jornalista, escritora e roteirista especializada no universo feminino há 20 anos. Passou pelas redações de O Globo, Jornal do Brasil e revistas como Vogue, Marie Claire e Nova, além de ter assinado roteiros na TV Globo, GNT e Discovery Channel.
Kizzy Bortolo
Jornalista, escritora e roteirista