Carolina Espindola - Mulheres Positivas

Carolina Espindola

Escrito por Kizzy Bortolo

Ao sentar-se, casualmente, ao lado de um bonito rapaz na plateia de uma peça de teatro, a psicóloga Carolina Espindola, de 53 anos, conheceu José. Os dois logo sentiram uma conexão e marcaram um encontro para o dia seguinte, mas ele sofreu um grave acidente de carro — que ela descobriu através de uma reportagem na TV —, que o deixou cego e muitos meses em tratamento no hospital. Embora o tivesse encontrado apenas uma vez, Carolina cuidou dele por meses, esteve ao seu lado no diagnóstico de cegueira total e o ajudou a voltar aos estudos e na adaptação à nova vida.

“Nasci em Piracicaba, interior de São Paulo, em março de 1973. Minha mãe era de lá e meu pai era de Ribeirão Preto. Ele foi para Piracicaba fazer faculdade de Engenharia Agrícola aos 20 anos de idade e lá conheceu a minha mãe. Sou a filha do meio entre três irmãos. Moramos em várias cidades, pelo fato de o meu pai ser constantemente transferido de trabalho. Ele foi professor universitário (graduação e pós-graduação) da formação à aposentadoria e passou pelas maiores universidades do estado de São Paulo, como Unesp, USP e Unicamp. Já minha mãe era técnica judiciária e está aposentada pelo Fórum de Jaguariúna. Ambos estão, hoje, com 82 anos. Ela tem Alzheimer avançado, e eles se separaram em 1988, quando eu tinha 15 anos. Foi uma separação amigável, pois meu pai se envolveu em um relacionamento homoafetivo e vive há 40 anos com seu companheiro (meu padrasto). Para a nossa família, isso nunca foi um tabu; muito pelo contrário: sempre lidamos muito bem com o fato de meu pai ser homossexual.

Fiz faculdade de Psicologia na Universidade Estadual de Londrina, no Paraná, e formei-me em 1995. Conheci o José, pai dos meus filhos, em um teatro em Londrina, em junho de 1993. Combinamos de nos encontrar no dia seguinte, pois nos conectamos logo de cara e pintou um clima de paquera entre nós. Mas o encontro não aconteceu, pois ele sofreu um grave acidente de trânsito quando ia me buscar para sairmos e ficou cego.

Acompanhei todos os tratamentos do Zezinho de perto; ia todos os dias ao hospital visitá-lo. Desenvolvemos um afeto e um carinho no meio de todo esse caos e logo nos apaixonamos e começamos a namorar. Após várias cirurgias na tentativa de recuperar a visão de um dos olhos (o direito) e após dois meses de internação, ele foi transferido para um hospital em São Paulo. Eu me ofereci para acompanhá-lo na ambulância e fui a responsável pelos colírios que eram pingados, diariamente, a cada 15 minutos. Esse processo de tratamento durou seis meses e foram realizadas seis cirurgias. Mas, infelizmente, ele teve cegueira bilateral — ou seja, nos dois olhos — e não conseguiu salvar sua visão.

Após a alta médica, em dezembro de 1993, decidimos morar juntos em Londrina para concluirmos as nossas faculdades (eu fazia Psicologia e ele, Fisioterapia). Ele enfrentou muitas barreiras para se formar (preconceito), mas concluiu o curso sendo o primeiro orador de formatura cego da história da universidade.

Engravidei no período em que nos preparávamos para o nosso casamento, e a cerimônia aconteceu em 28 de janeiro de 1995. Nossos filhos gêmeos (dois meninos) nasceram em 31 de julho de 1995. Hoje eles estão com 31 anos: Pêdra é uma mulher trans e Mateus... ambos são autistas nível 1 de suporte. Quando os gêmeos tinham um ano, o Zezinho entrou para a política, na qual milita até hoje. Ele é um idealista, luta pelos direitos das pessoas com deficiência e dos menos assistidos. Porém, esse foi o motivo pelo qual muitas coisas foram dificultando a nossa vida a dois.

Nesta época, lembro-me de que eu tinha dois empregos para dar conta de tudo (um em uma clínica particular e outro em um hospital psiquiátrico), cuidava das crianças e ainda acompanhava meu marido nas reuniões do partido político. Era insalubre e muito difícil conciliar tudo. Quando as crianças completaram cinco anos, o Zé foi eleito vereador da cidade de Rolândia, no norte do Paraná. Aí a correria piorou muito, e os desgastes na nossa relação começaram. Os gêmeos eram muito agitados, sensíveis a barulhos e não ficavam bem em ambientes com muitas pessoas.

Quando eles fizeram seis anos, tive problemas com o uso de anticonceptivos e acabei engravidando sem me planejar novamente. Foi uma gravidez de risco: desenvolvi hipertensão e, aos cinco meses de gestação, comecei a ter muitas contrações. Precisei fazer uso de medicações, cumprir repouso absoluto até a bebê (minha filha Ana Clara) nascer e tive que me desligar dos meus dois trabalhos, o que me deixou muito triste e frustrada na época. Mas meu repouso não era respeitado, e as reuniões do partido político continuavam acontecendo lá em casa. O Zezinho era novamente candidato, desta vez a deputado federal, e eu não aguentei aquela situação nem aquela pressão toda, até mesmo porque nossos filhos gêmeos estavam sofrendo muito em meio àquele caos em que vivíamos.

Nos separamos quando eu estava prestes a completar sete meses de gestação. Em 25 de abril de 2002, nossa filha caçula nasceu e, quando ela completou dois meses de vida, resolvi me mudar para Jaguariúna, no interior de São Paulo. Fui de carro, sozinha: eu e as três crianças (os gêmeos com sete anos e uma bebê com pouco mais de 60 dias de vida).

Ana Clara, minha caçula, sempre teve a saúde frágil (tinha imunidade baixa) e começou a apresentar problemas ortopédicos muito cedo. Aos 11 anos, passou a deslocar os joelhos — foram 13 vezes ao todo. Então, ela foi submetida a três cirurgias aos 16 e 17 anos. Passou muito tempo fazendo fisioterapia e sentia fortes dores nas articulações. Aos 20 anos, após peregrinarmos de médico em médico, obtivemos as explicações para um quadro tão difuso e raro: Síndrome de Ehlers-Danlos (uma doença do tecido conjuntivo).

Foram muitas as perguntas que me fiz em todos esses anos. Como consegui dar conta de tudo sozinha? Como uma mãe solo se sente? Como a sociedade nos trata ao cuidarmos das crianças sozinhos? Como trabalhar, criar filhos e ainda conseguir se relacionar amorosamente com alguém? Como se desenvolver na profissão tendo tantas demandas em casa? Quem olha e enxerga a nós, mães atípicas? Foram muitos questionamentos. Porém, essa é a realidade de tantas mulheres no nosso Brasil!

Trabalho como psicóloga há 30 anos, com experiência em diversas áreas: hospital psiquiátrico do SUS, posto de saúde, clínica particular e escolas (do ensino infantil ao cursinho pré-vestibular). Também sou formada em Pedagogia pela Universidade Metodista de São Paulo (formei-me em 2015). Atualmente, sou proprietária e gestora do ‘Espaço Comportamento’ (duas unidades em Campinas/SP), que conta com uma equipe multidisciplinar na área da saúde com 35 profissionais atendendo em psiquiatria, psicologia, psicopedagogia, avaliação neuropsicológica, nutrição, fisioterapia e neuropsicopedagogia.

Recentemente, lancei uma coletânea de seis livros infantis, a coleção Neurodiversidade, que foi criada para apoiar crianças, famílias, educadores e profissionais da saúde na compreensão desse universo. Esta coleção conta a história de vários personagens da fauna brasileira e sua descoberta de um modo singular de interagir com o mundo. Nos livros, abordo dificuldades sociais, altas habilidades, rigidez cognitiva, dificuldade de identificar e expressar emoções, déficit de atenção e hiperfoco.

E estou para lançar até o próximo mês (outubro de 2026) mais um livro, a minha autobiografia, intitulada ‘Várias de mim’, na qual relato com detalhes a minha história de vida e toda a superação que passamos em família. O mais legal é que minha história também chamou a atenção do audiovisual e pode se tornar filme! Imagine minha história nos cinemas de todo o Brasil! Isso me deixaria ainda mais feliz e orgulhosa de tudo o que vivi até aqui!”

Kizzy Bortolo — jornalista, escritora e roteirista especializada no universo feminino há 20 anos. Passou pelas redações de O Globo, Jornal do Brasil e revistas como Vogue, Marie Claire e Nova, além de ter assinado roteiros na TV Globo, GNT e Discovery Channel.
Kizzy Bortolo
Jornalista, escritora e roteirista