Daniela Gurgel é Fundadora da ONG Natureza Conecta, que combate a exclusão social de crianças e adolescentes por meio da terapia assistida por animais. Formada em Relações Públicas e Medicina Veterinária, a executiva trabalhou em organizações internacionais que defendiam os direitos de animais, uma delas a World Animal Protection. Seu primeiro contato com a terapia com animais aconteceu quando morou nos Estados Unidos. Ela conheceu o projeto da Green Chimneys, instituição norte-americana que atua na causa há 75 anos, e decidiu adaptar para o Brasil, fundando a Natureza Conecta em 2021.
A ONG transforma histórias de abandono em caminhos de reconstrução. Em uma fazenda em Itu, animais resgatados de situações de violência e negligência passam a atuar como co-terapeutas no atendimento de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade, incluindo jovens que vivem em abrigos ou cumprem medidas socioeducativas na Fundação CASA. A proposta une terapia assistida por animais, educação ambiental e apoio emocional para estimular vínculos, empatia e desenvolvimento social.
Minha carreira começou a partir de uma busca muito profunda por sentido no trabalho. Tive experiências com animais em diferentes contextos, inclusive fora do Brasil, e isso foi me mostrando que o cuidado, o entendimento do comportamento animal e o vínculo entre o ser humano e o animal tinham um potencial muito transformador, muito maior do que eu imaginava. Quando migrei da área em que atuava para a Medicina Veterinária, aprofundei esse olhar técnico e entendi que era possível unir o bem-estar animal, a saúde mental e o impacto social. Foi dessa construção que nasceu a Natureza Conecta.
A Natureza Conecta é uma organização social formada por uma equipe multidisciplinar e por animais que chamamos de coterapeutas, que participam do processo terapêutico de forma ética e cuidadosa. Atendemos crianças e adolescentes em situação de extrema vulnerabilidade social por meio de terapias assistidas por animais, que são experiências terapêuticas e socioeducativas. A importância desse trabalho está em oferecer o cuidado em saúde mental por um caminho que muitas vezes alcança onde a palavra sozinha não chega. O vínculo com os animais favorece a confiança, a regulação emocional, a responsabilização e a reconstrução da autoestima.
O momento mais difícil foi transformar uma visão, uma intuição, em uma estrutura real e sustentável. Empreender socialmente no Brasil já é desafiador, e propor um modelo inovador de cuidado em saúde mental com animais exige ainda mais, porque é preciso provar constantemente o valor do trabalho para parceiros, financiadores e o poder público. Houve momentos de sobrecarga, incerteza financeira e necessidade de sustentar a operação sem perder a qualidade técnica. Nesse processo, aprendi que liderar também é continuar mesmo sem validação suficiente, acreditar e seguir vendo os resultados acontecerem.
Eu não acredito em equilíbrio perfeito. O que busco é consciência e prioridade. Existem fases em que o trabalho exige mais e momentos em que preciso proteger minha vida pessoal, inclusive para preservar minha saúde mental. Aprendi que equilíbrio não é dividir tudo igualmente, mas fazer escolhas mais maduras, estabelecer limites e entender que cuidar de mim é parte da missão. Preciso estar bem para cuidar do outro, tanto na vida pessoal quanto na profissional.
Meu maior sonho é que a Natureza Conecta ajude a redefinir a forma como o Brasil enxerga o cuidado com a saúde mental de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social, incluindo a terapia com animais nessa pauta. Quero ver esse trabalho reconhecido não como algo apenas bonito ou alternativo, mas como uma prática séria, ética e transformadora, capaz de influenciar políticas públicas e ampliar o acesso para quem mais precisa.
Minha maior conquista foi transformar uma intuição profunda em um trabalho concreto, com impacto real na vida de mais de 150 crianças e adolescentes. Conseguir materializar essa visão e comprovar que a relação humano-animal pode ser profundamente transformadora, abrindo caminhos para a saúde mental, para a reconstrução de vínculos e para a retomada de sentido na vida. Ao mesmo tempo, esse trabalho também transforma a vida dos animais, que passam a ocupar um lugar de cuidado, respeito e pertencimento. Essa concretização é o que mais me marca.
O livro é “Holocausto” Brasileiro, da Daniela Arbex. O filme é “Nise - O Coração da Loucura”. A mulher que admiro é Nise da Silveira, que defendeu com coragem um cuidado em saúde mental mais humano, sensível e transformador, sendo uma referência importante na introdução desse olhar no Brasil, inclusive no uso da relação com os animais como parte do cuidado.