Nossa Mulher Positiva é Paula Roschel, criadora do Wellmanaque, uma plataforma on-line e impressa, gratuita, dedicada ao bem-estar, à valorização de figuras
femininas de destaque e ao cuidado com a saúde mental. A jornalista, escritora, pesquisadora e roteirista também dirige o Jornaldamoda Conteúdo, escritório focado em consultoria e treinamento que oferece suporte a marcas e projetos que desejam aprimorar a comunicação B2B e B2C em um cenário frequentemente marcado pelo excesso de informação e pela dispersão.
Minha trajetória começou no jornalismo de moda e lifestyle. Atuei por muitos anos dentro e fora do Brasil, editando e escrevendo para veículos como L’Officiel, UOL, Forbes, GNT, Glamour e Expressions, entre outros. A ideia sempre foi percorrer caminhos de conteúdo com apuração jornalística, mas utilizando uma linguagem simples que ampliasse o alcance das matérias, capas e brandeds. Em um percurso natural, após consolidar projetos, passei
a dedicar-me ao Jornaldamoda Conteúdo, escritório cuja competência é desenvolver projetos especiais leves e com apuração minuciosa, bem como analisar e criar reports sobre segmentos de consumo em comunicação e mídia. Em 2023, tirei do papel um desejo antigo: o Wellmanaque. O projeto é uma plataforma de bem-estar gratuita, feita para nos levar ao relaxamento e à calma em um mundo que atravessa o efeito colateral da infoxicação; — o excesso de conteúdo e estímulos que levam as pessoas a desenvolver sintomas de ansiedade e depressão. Vale lembrar que o Brasil é considerado pela OMS o país mais ansioso do mundo, o que configura um problema de saúde pública. Senti que, agora mais do que nunca, é hora de nutrir os leitores com conteúdos propositivos, especialmente para as mulheres.
Fazer jornalismo, seja ele independente ou em grandes veículos, é sempre um desafio. O momento mais importante e recente da minha carreira foi enfrentar o sucateamento da área. Estamos na era da saturação de milhares de trends em redes sociais; conteúdos muitas vezes vazios que buscam agradar a algoritmos, não a leitores. Recalcular a rota para o meu negócio como publisher e para os clientes que atendo em consultoria foi desafiador. Percebi que o ritmo frenético das plataformas digitais afetava a saúde mental das pessoas e a qualidade do conteúdo. Em vez de sucumbir, vi a necessidade de uma adequação estratégica, o que me impulsionou a criar o Wellmanaque. Outro momento marcante foi abraçar a causa do combate à violência doméstica. Parece surreal pensar que se pode sofrer retaliações por tentar abrir os olhos de mulheres atingidas pela desigualdade e pela repressão, mas encarei o desafio. Apesar do medo, propaguei, a partir de 2020, meu primeiro livro sobre sororidade — um movimento social feminino focado em enxergar em outras mulheres fontes de apoio e cuidado. Fico muito feliz com o sucesso da publicação que, anos após o lançamento, ainda está disponível
Aplico na minha vida a filosofia que prego no Wellmanaque: o resgate do prazer da vida sem pressa". Escolhi, por exemplo, não manter meu veículo no Instagram, o que é um manifesto sobre como a vida pode fluir bem além dos "cercados" das redes sociais. A recepção a essa escolha foi muito positiva, o que me impressionou. Para equilibrar as esferas profissional e pessoal, decidi desacelerar. Tento desenvolver projetos com conteúdos mais atemporais, matérias especiais e criação de senso de comunidade; isso me traz propósito além dos números e, mesmo assim, a audiência só cresce. Uma mudança
recente que melhorou meus momentos de pico de estresse foi quase não consumir conteúdo de feeds. Entro, interajo com a minha base, acesso ativamente perfis que me agradam ou informam e interrompo o uso. Também delimitei o tempo de tela em casa, tentando não levar o celular para o quarto (e falhando às vezes, risos). É difícil, mas quando consigo, percebo que estou mais focada e feliz. Não sou contra a tecnologia, mas creio que precisamos usá-la de forma responsável e construtiva. Por fim, tento colocar meu corpo em movimento e praticar meditação. O ser humano foi feito para se mexer. Ficar sentado o dia
todo pode não ser uma escolha para muitos, então meu conselho é: mesmo que lentamente, tente se movimentar mais. Busque atividades de lazer no mundo analógico — visite um museu, uma exposição, passeie no parque ou na praça do bairro. Socialize e medite mais.
Meu sonho é seguir escrevendo, trocando experiências com meus leitores e descobrindo pautas que melhorem a vida das pessoas e ampliem o bem-estar. Gostaria de ver o jornalismo focado na apuração e em conteúdos especiais ganhar mais força, com novas equipes se formando e projetos instigantes saindo do forno. Sou otimista, pois percebemos um movimento global que resgata a curadoria. A informação de qualidade é mais importante do que nunca. Espero também que o Wellmanaque continue despertando a curiosidade e o senso crítico sobre a importância de cuidar da nossa saúde mental.
Ter conseguido publicar matérias que impactaram positivamente a vida das pessoas, seja em assuntos sérios, focados em saúde e no combate à violência, ou no entretenimento que relaxa e amplia o conhecimento. Fico emocionada com o retorno de leitoras que citam meu livro como uma virada de chave para sair de relacionamentos abusivos ou situações de angústia, ou que veem o Wellmanaque como um oásis de leitura e bem-estar. Esse é o maior prêmio que recebi ao longo de quase duas décadas de escrita. É o que me motiva a seguir estudando e superando barreiras.
Livro: Admiro obras que exploram o comportamento humano. O que estou lendo atualmente é uma ótima indicação: “Minhas queridas e outras cartas”, de Clarice Lispector, um compilado de cartas trocadas entre a autora e suas irmãs, organizado pela biógrafa Teresa Montero. A obra revela a força da união feminina e retrata momentos históricos de Clarice no exterior.
Filme: A indicação audiovisual mais interessante dos últimos meses é, na verdade, a série documental “The Beatles Anthology”. Conta a história da banda pela ótica dos próprios integrantes e de quem trabalhou com eles. É uma aula sobre música e cultura contemporânea.
Mulher que admira: As mais de 500 mulheres entrevistadas para o meu livro. Cada uma, com sua história de superação e empatia, ajudou a construir a base do que acredito hoje como profissional. Como diz a frase de Tolstói: Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia. Para ajudar as mulheres, precisamos olhar para as que estão em nosso entorno. Essa coletividade e resiliência feminina me encantam e instigam a cada dia.