Nossa Mulher Positiva é Cynthia Diaféria, CEO da UCB Biopharma Brasil. Mãe e executiva com uma sólida trajetória no setor da saúde, ela acredita no poder da inovação para ampliar oportunidades e gerar impacto positivo na sociedade.
Transformar histórias e impactar a sociedade veio antes da escolha da minha profissão.
Desde muito cedo, eu me perguntava por que algumas pessoas, mesmo sendo extremamente capazes, encontravam muito mais barreiras do que outras para realizar seu potencial. Acho que ali nasceu a minha vontade de contribuir para uma sociedade mais justa.
Quando chegou o momento de escolher uma carreira, encontrei na Farmácia e Bioquímica um potencial caminho para ampliar esse impacto. Na saúde, é normal cuidar de uma vida por vez. A ciência, quando trabalha a inovação, pode transformar milhões de vidas. Essa possibilidade me fascinou.
Hoje, ao olhar para trás, percebo que esse propósito nunca mudou. Ele encontrou diferentes caminhos ao longo da minha jornada: nos 30 anos dedicados à ciência e saúde, nas posições de liderança de pessoas e equipes e, mais recentemente, também por meio de um projeto social, muito especial para mim. Em todos eles, continuo tentando responder à mesma pergunta: como ampliar oportunidades e melhorar a vida das pessoas e da sociedade?
Trabalhar com saúde muda completamente a forma como você enxerga um negócio.
Na UCB, uma biofarmacêutica global focada em inovação, desenvolvemos tratamentos para doenças imunológicas, neurológicas e raras. Mas o que mais me inspira é que a conversa nunca começa pelo produto. Ela começa pelo paciente.
Começa tentando entender o que significa viver com uma doença que limita autonomia, planos e possibilidades. Quando uma inovação consegue devolver parte dessas possibilidades, percebemos que estamos falando de muito mais do que ciência. Estamos falando de futuro, independência e qualidade de vida.
É isso que me conecta tão fortemente ao propósito da UCB: acreditar que inovação só cumpre seu papel quando chega às pessoas que realmente precisam dela.
Portanto, nosso modelo de negócios prioriza genuinamente o paciente no centro das decisões e do desenvolvimento das inovações terapêuticas que criamos.
Foi quando percebi que propósito também pode doer.
Trabalhei durante anos em um projeto de desenvolvimento e lançamento de uma inovação em saúde que representava uma mudança importante na vida de muitos pacientes. Desenhamos o modelo de negócio, contratamos e treinamos equipes, capacitamos profissionais de saúde e vimos as primeiras pessoas se beneficiarem daquela nova possibilidade.
Meses após o lançamento, a companhia decidiu globalmente descontinuar o produto por razões estratégicas. Não havia nenhuma questão relacionada à segurança ou à eficácia. Era uma decisão de sustentabilidade do negócio.
Naquele mesmo momento, eu estava em transição para uma promoção internacional. Mas senti que o necessário era permanecer no Brasil para conduzir aquela reviravolta da mudança de curso da forma mais responsável possível, ao lado das equipes, dos profissionais de saúde e focada nos pacientes.
Foi quando entendi que liderar não é estar presente apenas nas conquistas. É permanecer também nos momentos difíceis. Desde então, passei a valorizar ainda mais o timing das decisões e a considerar, de forma consciente, todas as pessoas potencialmente impactadas por elas. E que experiências valem muito, não somente cargos.
Eu gosto muito da palavra equilíbrio, mas tenho dificuldade em associá-la à ideia de uma balança perfeita entre vida pessoal e profissional.
Há momentos em que o trabalho precisa de mais espaço. Outros em que a família domina a agenda de forma absoluta. E tudo bem.
Ao longo dos anos, passei a acreditar mais em presença, do que em equilíbrio.
Nem sempre consigo estar em todos os lugares o quanto gostaria, mas procuro estar inteira onde escolhi estar. No fim, acredito que coerência é mais importante do que perfeição.
E talvez isso seja o que mais me ajuda: carregar os mesmos valores comigo em todos os ambientes que frequento. No trabalho, em casa ou no Guarda-Roupa Social, procuro ser exatamente a mesma pessoa. Talvez esse seja o equilíbrio.
Meu maior sonho é que iniciativas como o Guarda-Roupa Social, um projeto de suporte a mulheres economicamente vulneráveis, que hoje existem para reduzir lacunas de equidade simplesmente deixem de ser necessárias.
Isso significaria que conseguimos construir uma sociedade em que o acesso às oportunidades não dependa do CEP, da condição financeira, do gênero ou da rede de apoio de cada pessoa.
Enquanto esse dia não chega, acredito que todos nós temos um papel a desempenhar. O Guarda-Roupa Social nasceu exatamente dessa convicção: talento está muito mais distribuído do que as oportunidades.
Se cada um puder diminuir uma parte dessa distância, já estaremos transformando muitas histórias.
Os cargos e empresas passam. As pessoas ficam.
Por isso, minha maior conquista é a diferença que pude fazer em outras histórias, que é maior que me tornar CEO. Foi chegar até aqui sem abrir mão de quem eu sou.
Tenho orgulho dos resultados que construí com diferentes equipes, mas o que mais me emociona é encontrar pessoas com quem trabalhei e ouvir que contribuí de alguma forma para seu crescimento, seguir tendo sua confiança ou ter impulsionado sua coragem para assumir novos desafios.
No fim, esse é o legado que mais gostaria de deixar.
Livro: Essencialismo, de Greg McKeown. É um livro ao qual sempre volto porque me lembra que foco também é uma escolha. Em um mundo que valoriza fazer cada vez mais, ele nos convida a refletir sobre fazer o que realmente importa.
Filme: Pad Man. Porque mostra que inovação não nasce apenas da tecnologia. Ela nasce da empatia. Alguém enxergou um problema real, decidiu agir e criou uma nova forma de solução que ampliou dignidade, acesso e oportunidades para milhões de mulheres. Essa é a inovação que mais me inspira.
Mulher que admiro: Recentemente fiquei muito impressionada com a Eileen Gu. Não apenas pelas medalhas conquistadas, mas pela forma como ocupa o próprio espaço.
Quando perguntaram se ela estava frustrada por conquistar uma medalha de prata, ela simplesmente rejeitou essa premissa e escolheu celebrar o que havia alcançado.
Acho que há algo muito poderoso nisso.
Espero que cada nova geração de mulheres cresça entendendo que não precisa minimizar suas conquistas para ser aceita, nem pedir desculpas por ocupar espaços que lhe pertence.