Carolina Almeida Cruz

Nossa Mulher Positiva é Carolina Almeida Cruz, cofundadora e CEO da C-MORE, empresa global de tecnologia focada em gestão de riscos e conformidade regulatória.
Para ela, os desafios são oportunidades de adaptação e crescimento.

1. Como começou a sua carreira?

Minha jornada começou na Organização Internacional do Trabalho (OIT), atuando em projetos ligados ao combate ao tráfico humano e à desigualdade estrutural. Foi ali que compreendi algo que mudou minha forma de ver o mundo dos negócios: se o dinheiro pode ser uma linguagem universal, os dados são a linguagem que transforma valores em impacto real e mensurável.
Nesse período, aprendi a diferença profunda entre apenas cortar custos e, de fato, criar valor. Esse entendimento deu origem aos conceitos que hoje guiam tudo o que construo:
Return on Saving e Return on Intelligence — a ideia de que empresas mais inteligentes, orientadas por dados e propósito, são também mais resilientes, competitivas e sustentáveis.
Esse caminho me levou a cofundar a C-MORE, uma empresa SaaS certificada como B-Corp, criada para transformar dados de sustentabilidade, riscos e ESG em inteligência prática para decisões reais. Hoje, a C-MORE apoia empresas de todos os tamanhos — especialmente micro, pequenas e médias, que representam 99% da economia global — a entender seus riscos, antecipar desafios e tomar decisões mais conscientes por meio de dados padronizados, análises preditivas e inteligência artificial.
Trabalho na interseção entre ética, economia e tecnologia exponencial. Trago uma vivência global da Europa, América Latina, Oriente Médio e Ásia, além da experiência real de construir uma empresa de impacto que passa por duas grandes transformações: tornar-se nativa em IA e escalar de um modelo centrado nas fundadoras para uma estrutura comercial sênior e global.
O que me define é essa combinação entre sistema e alma: compreender estruturas globais sem perder o olhar humano. Eu construo tecnologia para servir pessoas — nunca o contrário.

2. Como é formatado o modelo de negócios da C-MORE?

A C-MORE opera com uma plataforma baseada em inteligência artificial que automatiza a coleta, verificação e análise de dados de ESG e riscos operacionais, substituindo processos manuais tradicionalmente feitos por auditorias e sistemas convencionais.
Utilizamos tecnologias como RAG (Retrieval-Augmented Generation), agentes inteligentes e orquestração multi-LLM para entregar inteligência rastreável, confiável e acionável em escala. Empresas como a SGS confiam na nossa tecnologia para reduzir riscos, fortalecer cadeias de suprimento, aumentar a eficiência, melhorar o compliance e tomar decisões mais rápidas e estratégicas.
Nosso modelo de crescimento combina dois pilares:
Internamente: Investimos na construção de equipes de alto nível nos nossos mercados estratégicos — Europa, Estados Unidos e Brasil — com lideranças regionais experientes e equipes comerciais enxutas, altamente eficientes e orientadas a resultados.
Externamente: Adotamos uma abordagem partner-first, colaborando com investidores, organizações e parceiros tecnológicos para acelerar a entrada em novos mercados, ampliar o impacto e fortalecer nossa proposta de valor, sem perder a agilidade nem a cultura de inovação.

3. Qual foi o momento mais difícil da sua carreira?

Os momentos mais difíceis da minha trajetória sempre tiveram raiz em algo que me toca profundamente: a injustiça. Um dos mais marcantes foi o início da captação de investimentos da C-MORE, que enfrentei ao lado da minha sócia, Carina Abreu. Ali, nos deparamos com uma realidade que ainda hoje é dura e sistêmica: apenas 2% do capital global de risco é destinado a empresas fundadas por mulheres.
Nasci em Portugal e vivi em três continentes. Em muitos desses contextos, culturas marcadas pelo conservadorismo e pela predominância masculina tornam o espaço para mulheres empreendedoras ainda mais estreito. Ser ouvida, levada a sério e respeitada como líder ainda é, muitas vezes, um desafio diário. Mas nossa missão sempre foi maior do que levantar capital. Queremos transformar o "esforço extra" que as mulheres precisam fazer hoje no novo padrão de excelência do amanhã.
A virada veio quando fechamos o investimento com a Flexdeal, em uma avaliação de 10 milhões de euros. Não foi apenas sobre dinheiro — foi sobre confiança, integridade e visão compartilhada. Eles provaram que investir em inovação liderada por mulheres não é um risco; é inteligência de negócios.

4. Como você consegue equilibrar sua vida pessoal com a vida corporativa?

Existe uma frase do Barack Obama que me marcou muito, pois traduz bem a minha realidade: eu não acredito em equilíbrio perfeito. Acredito em prioridades conscientes.
Quando estamos em foco total em uma área da vida, inevitavelmente outras ficam em segundo plano por um tempo. A verdadeira habilidade está na velocidade com que conseguimos trazê-las de volta ao centro. O mais importante, para mim, é aprender rápido, reconhecer meus limites e garantir minha estabilidade emocional. Assim, consigo ser feliz nas diferentes dimensões da minha vida, sem perder quem eu sou no processo.

5. Qual o seu maior sonho?

Meu maior sonho é ser feliz. E, honestamente, sou todos os dias. Mas, acima de tudo, quero ter a certeza de que nunca vivi um único dia em vão. Que cada passo, cada projeto e cada desafio tenham deixado algo melhor para as pessoas e para o mundo ao meu redor.
Sonho em continuar construindo tecnologia com propósito, ajudando empresas a tomarem decisões mais éticas, inteligentes e sustentáveis — provando que impacto positivo e sucesso econômico não só podem coexistir, como se fortalecem mutuamente.

6. Qual sua maior conquista?

Viver cercada de amor. Minha família — tanto a que nasci quanto a que construí ao longo da vida — é minha base. Tenho pessoas ao meu lado que me lembram, todos os dias, de quem eu sou e por que faço o que faço. Sem elas, nada do que construí teria o mesmo significado.

7. Livro, filme e mulher que admira?

Livro: Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar.
Filme: Sociedade dos Poetas Mortos.
Mulher que admiro: Minha avó paterna, Mimi. Ela definia coragem de uma forma que nunca esqueci: dizia que, nos momentos em que é mais fácil perder a verticalidade, é exatamente ali que decidimos se vamos morrer de joelhos ou permanecer de pé. E, para ela, era sempre de pé. Foi uma mulher empreendedora extraordinária, à frente do seu tempo, e uma das maiores inspirações da minha vida.