Gabriella Bighetti - Mulheres Positivas

Gabriella Bighett

Nossa Mulher Positiva é Gabriella Bighetti, CEO da UWB (United Way Brasil). Referência em impacto social, Gabriella construiu uma trajetória guiada por propósito e hoje é uma das vozes mais relevantes na construção de oportunidades para as novas gerações brasileiras.

1. Como começou a sua carreira?

Eu fui uma daquelas pessoas que, no ensino médio, não sabia exatamente qual carreira seguir. Tinha interesse por áreas muito diferentes: humanas, exatas e saúde. Por isso, comecei três faculdades ao mesmo tempo: Psicologia, Economia e Direito.
Logo no primeiro ano, me encantei pelo Direito. Segui esse caminho, fiz estágio no Ministério Público, passei por escritórios de advocacia e, depois, fui efetivada em um banco de investimentos. Foi uma fase de muito aprendizado e crescimento profissional, mas, com o tempo, percebi que algo não estava no lugar. Eu estava avançando na carreira, mas não me sentia realizada.
Esse incômodo me levou a uma pergunta essencial: “o que realmente me move?”. Foi nesse processo que percebi que a agenda socioambiental — ainda muito nova naquela época — despertava em mim um senso profundo de propósito. Entendi que precisava mudar de rota.
Decidi, então, prestar vestibular para Biologia, pedi demissão e comecei a me aproximar de pessoas que já atuavam nessa área. Em uma dessas conversas, conheci alguém que estava apoiando a chegada ao Brasil de uma grande fundação europeia e que me indicou para uma vaga de analista de projetos sociais.
Foi assim que iniciei minha trajetória no campo do investimento social estratégico: a partir de uma transição corajosa, movida pela busca de sentido e pela vontade de contribuir para transformações mais profundas na sociedade.

2. Como é formatado o modelo de negócios da United Way Brasil?

A United Way Brasil faz parte de uma das maiores redes de filantropia do mundo. Globalmente, a United Way tem mais de 140 anos de história e está presente em 39 países. No Brasil, foi fundada há 25 anos, com a missão de gerar oportunidades para as novas gerações.
Nosso modelo combina a força de uma rede global com uma governança integralmente desenvolvida no Brasil. Isso é muito importante: nos beneficiamos de conhecimento, reputação e conexões internacionais, mas atuamos a partir das necessidades reais do território brasileiro.
Escolhemos trabalhar com duas fases que consideramos grandes janelas de oportunidade do desenvolvimento humano: a primeira infância, de 0 a 6 anos, e a juventude, de 15 a 29 anos. Na primeira infância, queremos garantir que crianças tenham condições de se desenvolver integralmente em uma fase decisiva, quando ocorre a maior parte do desenvolvimento cerebral. Na juventude, atuamos em um momento em que a pessoa está construindo sua identidade, seus projetos de vida e sua inserção no mundo.
O Brasil ainda tem muitas crianças e jovens em situação de vulnerabilidade, que precisam de uma rede de apoio para acessar direitos, oportunidades e poder de escolha. Por isso, nosso modelo de atuação é colaborativo. A United Way Brasil não trabalha sozinha: articulamos empresas, voluntários, organizações sociais, fundações internacionais e governos para construir soluções sustentáveis e com potencial de escala.

3. Qual foi o momento mais difícil da sua carreira?

Seguramente, um dos momentos mais difíceis da minha carreira foi perceber que eu não estava feliz trabalhando como advogada em um banco de investimentos. Eu sabia que não queria seguir naquele caminho, mas ainda não sabia exatamente o que me traria sentido.
Foi um período de muito autoconhecimento. Precisei revisitar minha trajetória, entender minhas motivações e reconhecer que o que realmente me movia era a busca por justiça social.
O desafio maior foi ter coragem de pedir demissão e deixar uma carreira que me trazia segurança e retorno financeiro para me arriscar em uma área ainda em construção. Na época, o investimento social era um campo muito mais ocupado por voluntários do que por profissionais, e havia poucas oportunidades estruturadas.
Mas essa transição me ensinou algo importante: às vezes, o momento mais difícil é justamente aquele que abre espaço para a trajetória mais verdadeira.

4. Como você consegue equilibrar sua vida pessoal x vida corporativa/empreendedora?

Para mim, equilíbrio tem muito a ver com foco, disciplina e presença. Não acredito em uma divisão perfeita entre vida pessoal e profissional, mas acredito na importância de estar inteira em cada espaço.
Quando estou trabalhando, procuro estar realmente focada no trabalho. Quando estou com minha família, meus amigos ou comigo mesma, tento preservar esse tempo com a mesma intencionalidade. Essa presença de qualidade faz muita diferença.
Também acredito que o clima importa muito — tanto no ambiente profissional quanto em casa. Relações saudáveis, confiança e leveza ajudam a sustentar bons resultados no trabalho e uma convivência mais plena na vida pessoal.

5. Qual seu maior sonho?

Meu maior sonho é que toda criança e todo jovem no Brasil tenham a oportunidade real de desenvolver plenamente o seu potencial.
Sonho com um país em que, ao chegar à vida adulta, cada pessoa possa fazer escolhas de verdade — e não apenas aceitar o caminho que a desigualdade tentou impor.
Para mim, isso é central: garantir poder de escolha para todos os brasileiros e brasileiras. Porque, oportunidade não é apenas acesso; é a possibilidade concreta de construir uma vida com dignidade, autonomia e futuro.

6. Qual sua maior conquista?

Minha maior conquista é, sem dúvida, a minha família.
Tenho muito orgulho dos meus dois filhos, hoje adultos, e da forma como eles se colocam no mundo. Tenho consciência de que eles cresceram em um contexto de muitos privilégios, mas acredito que minhas escolhas, minhas crenças e também o meu trabalho ajudaram a formá-los com senso de responsabilidade, empatia e compromisso com a sociedade.
Para mim, essa é uma grande conquista: ver meus filhos entendendo que privilégio não deve ser um lugar de acomodação, mas de responsabilidade.

7. Livro, filme e mulher que admira

Livro: Torto Arado, de Itamar Vieira Junior — uma obra potente que retrata o Brasil profundo e nos faz refletir sobre desigualdade, pertencimento e justiça social.
Filme: Central do Brasil, de Walter Salles — uma história profundamente humana sobre vínculos, empatia e as realidades de um Brasil que muitas vezes permanece invisível.
Mulher que admiro: Carolina Maria de Jesus — uma mulher que transformou sua própria vivência de vulnerabilidade em literatura e denúncia social. Sua história é um lembrete poderoso sobre talento, dignidade e a importância de dar voz a quem historicamente foi invisibilizado.