Escrito por Kizzy Bortolo
A história da psicopedagoga carioca Dejane Menezes atravessa limites extremos da dor e da sobrevivência: durante a gestação do seu primeiro filho, enfrentou uma gravidez de risco marcada por uma relação tóxica. Ela morou em um galinheiro com o bebê recém-nascido. Muito antes de ser autora de livro e psicopedagoga pós-graduada, Dejane foi uma jovem mãe sem-teto.
“Engravidei muito jovem de um namorado que tive na época e tive que ir morar na casa da família dele, no Rio de Janeiro. Mas o espaço que nos deram não foi um dos quartos da casa grande e confortável onde eles moravam, e sim um cômodo isolado, uma construção que a própria família chamava de ‘galinheiro’. Foi ali, com um filho recém-nascido nos braços, que passei o puerpério e os primeiros meses da maternidade enquanto (acreditem!) o andar de cima da casa principal estava totalmente vazio. Eu não tinha para onde ir, mas também não tinha como ficar mais ali. Porém, a decisão que tomei em seguida mudou o rumo da minha vida: tomei coragem, deixei esse relacionamento extremamente abusivo e voltei para a casa dos meus pais, em Guadalupe, na Zona Norte do Rio de Janeiro, com o filho pequeno no colo. Foi lá que recomecei a minha vida do zero.
Em muitos dias, deixei de comer para dar comida ao meu filho. Também já cheguei a passar mal de tanta fome que sentia. Eram duas horas de ônibus, todos os dias, para ir trabalhar e sustentá-lo. Lembro-me de que consegui um emprego em uma empresa de telefonia em Copacabana por indicação de um amigo. A rotina era dura: eu acordava às 3h40 para pegar dois ônibus e chegar a tempo ao trabalho, que começava às 7h30. Todos os dias enfrentava o mesmo trajeto e o mesmo sacrifício pela certeza de que valia a pena para poder criar meu filho sozinha. Foi esse emprego, conquistado pela força de quem não tinha alternativa, que me colocou no caminho de um encontro decisivo na minha vida.
Em um dos escritórios onde passei a trabalhar, conheci o homem que se tornaria meu marido e o grande amor da minha vida. Ele era dez anos mais velho que eu e descobrimos depois que, coincidentemente, tínhamos crescido em bairros vizinhos. Ou seja, crescemos a poucos metros de distância um do outro e frequentamos os mesmos lugares na infância, sem nunca termos nos cruzado. Foi incrível quando descobrimos isso. Recordo-me de que, quando cheguei ao trabalho, ele logo abriu um sorriso lindo para mim. Ali eu já sabia que ele seria o homem da minha vida! Senti uma paz que nunca tinha sentido perto de ninguém, foi algo mágico. Ele acolheu e cuidou do meu filho como se fosse seu, dando a ele tudo o que podia: um lar, dignidade, um nome e uma família de verdade.
Hoje, mais de trinta anos depois, esse meu filho primogênito é um homem bem-sucedido e com sua própria família constituída. Meu amor e eu seguimos juntos, celebrando mais de três décadas de casamento. Ele sempre será meu grande amor, o homem mais incrível que conheço e a quem tanto admiro. Eu jamais poderia imaginar que, ao ir para o trabalho, estava indo ao encontro do amor da minha vida. Após nos casarmos, engravidei e tivemos outro filho.
A minha trajetória de superação não parou na reconstrução da minha vida pessoal. Corri atrás, fui estudar e me formei como psicopedagoga, tornei-me especialista em neuropsicologia e hoje sou pós-graduanda em Neurociência Aplicada à Saúde pela Faculdade Sírio-Libanês. Ao longo do caminho, dediquei-me também a crianças em contextos de vulnerabilidade social — a mesma vulnerabilidade que eu conheci de perto quando fui mãe tão jovem.
Foi dessa combinação entre vivência pessoal e formação científica que nasceu o meu livro Alicerces da Fé. Este é o meu primeiro livro, lançado neste sábado, 5 de setembro de 2026, na 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, pela Editora Scortecci. A obra parte de um dado que preocupa educadores e famílias: o crescimento do número de jovens brasileiros que se afastam da religião. O livro propõe, com base na neurociência da memória, um novo caminho para pais que querem transmitir a fé aos filhos de forma que ela resista ao tempo e às dúvidas da vida adulta.
Costumo dizer que, se alguém me perguntasse lá atrás, na época em que morei no galinheiro, se um dia eu escreveria um livro, eu jamais acreditaria. Mas cada parte da minha história, inclusive tudo de mais duro que passei, deu-me ainda mais força e resiliência para chegar até aqui. Hoje, tenho muito orgulho da minha trajetória como psicopedagoga, especialista em neuropsicologia e pós-graduanda em neurociência, assim como do lançamento do meu primeiro livro, que é como um filho para mim.”