Lily Scott - Mulheres Positivas

Lily Scott

Nossa Mulher Positiva é Lily Scott, empresária e criadora do Love Cabaret, casa de performances sensuais e entretenimento imersivo em São Paulo; do Castro Festival, festival bienal para 15.000 pessoas que celebra a comunidade queer; e da Gira, agência de produção, criação e relacionamento da qual é Diretora Executiva. Referência na cena cultural e noturna da cidade, ela compartilha sua trajetória no empreendedorismo e os desafios de construir negócios inovadores e autorais.

1. Como começou a sua carreira?

Comecei por necessidade e hoje tenho plena convicção de que esse caminho era para ser o meu. Venho de uma família paulistana de classe média, com pai empreendedor e mãe que saiu do interior de São Paulo para construir uma vida na capital. Herdei valores, uma excelente educação, o riso fácil da minha mãe e a prosa boa do meu pai. E um sangue bem paulistano, de viver correndo para fazer acontecer. Mas, no quesito financeiro, não houve nada parecido com herança. Havia somente uma conta bancária limpa e incontáveis problemas financeiros na família.
Queria fazer muitas coisas na minha vida e entendi muito rápido que o salário de uma estagiária cursando Administração mal cobria os custos básicos da minha existência. Paralelamente a isso, não me enxergava em uma vida de escritório e em rotinas burocráticas, apesar de ter me saído bem nelas durante um ano. Foi nesse cenário que um amigo me ofereceu uma vaga como hostess em uma casa noturna que estava para inaugurar, mas com o dobro do salário que eu ganhava à época. Não pensei duas vezes e fui. Tinha 19 anos de idade.
Fiquei poucos meses nessa função, mas esse período me apresentou a pessoas, universos e possibilidades que abriram muitas portas e deram início a uma trajetória linda na cena cultural e noturna de São Paulo. Já são quase 18 anos atuando com produção de eventos, curadoria artística, entretenimento e pessoas. De lá para cá, só olhei para trás para revisitar as lembranças, reverenciar essa construção contínua e agradecer por tudo o que vivi. E pelo que ainda está por vir.

2. Como é formatado o modelo de negócios do Love Cabaret?

O Love Cabaret é um bar, restaurante e uma casa de entretenimento imersivo que mistura performances artísticas e experiências sensoriais. Não somos uma balada, não somos só um restaurante, não somos um teatro. Mas somos um pouco de tudo isso ao mesmo tempo, operando em sinergia. Trabalhamos com temporadas e atualmente estamos no ATO III, em que a proposta é oferecer uma experiência completa, onde o público não é apenas espectador, mas parte ativa da narrativa da noite.
Neste ato, contamos também com as quintas-feiras temáticas, que recebem duas das minhas programações favoritas: a MAGIC LOVE, uma noite pensada para nós, mulheres — dia de reunir as amigas e dar muita risada, em uma mistura de Clube das Mulheres com Magic Mike, mas com a condução artística e assinatura do Love Cabaret; e a eXXXtase, noite em que subimos um pouco o tom das apresentações artísticas e os celulares não são bem-vindos. Ambas são animadíssimas.

3. Qual foi o momento mais difícil da sua carreira?

Empreender é difícil demais. O tempo todo, sem folga. Escolher esse caminho é saber que o bônus e o ônus podem ser exponenciais e viver bem com isso. É precisar desenrolar as coisas com uma agilidade maior do que todo mundo ao seu redor e viver com o estômago revirado de tempos em tempos. Mas é ter uma parte sua intrinsecamente ligada a isso. É um sonho arriscado, mas a possibilidade de viver esse sonho é o que me move.
Agora, sobre um desafio específico, posso dizer que a estruturação de um projeto tão fora do convencional quanto o Love Cabaret foi, e continua sendo, um dos maiores. Por ser algo inovador e por fluir no universo da sensualidade e das artes do corpo, muitas vezes precisamos quebrar preconceitos e explicar a nossa proposta mais de uma vez.
Nossa conta do Instagram, a principal rede social para nos comunicarmos com a nossa base orgânica de quase 150 mil seguidores, já foi derrubada mais de quatro vezes sem justificativa plausível por parte da Meta, mesmo cumprindo todas as diretrizes da rede. Isso impacta diretamente os nossos negócios e é deveras desanimador. Em uma dessas ocasiões, ficamos quase seis meses sem a nossa conta oficial. O que esse desafio vem me ensinando é a desenvolver um olhar mais atento para outras formas e inteligências de comunicar o produto e o negócio, sem depender exclusivamente dessas três big techs que tomam conta do mundo.

4. Como você consegue equilibrar sua vida pessoal com a vida corporativa/empreendedora?

Eu não consigo (risos). Mas não fecho os olhos para isso: tento trabalhar nos pontos em que deixo a desejar e, principalmente, me permito ser somente humana e ficar em paz comigo mesma por não conseguir equilibrar todos os pratinhos ao mesmo tempo. Sou uma pessoa muito organizada com a minha agenda e com as minhas coisas e, como eventualmente a vida flui de maneira caótica, essa organização me ajuda a visualizar tudo o que está ao meu alcance. O que não está, se resolverá de uma forma ou de outra.Com o lançamento recente da Gira, agência de criação, produção e relacionamento da qual sou sócia-fundadora, tenho ciência de que estou em uma fase que exige foco, presença total e energia no trabalho. Isso significa dizer mais “não” do que “sim” para a vida pessoal, mas sem negligenciá-la. Isso nunca — mas, às vezes, sim (risos).
A minha vida corporativa e profissional é composta por muitas pessoas do meu convívio pessoal: amigos, parceiros antigos e recém-chegados. Estou sempre entre pessoas e em movimento. A parte que compete à vida pessoal e na qual às vezes deixo a desejar é a destinada a mim mesma. Meu tempo para a leitura, pesquisa de músicas, meus momentos para ficar em silêncio, desconectada das redes sociais ou somente para existir fora do tempo do relógio e dessa velocidade acelerada em que vivemos. Mas nunca desisto e sigo tentando.

5. Qual é o seu maior sonho?

Nossa, um só? (risos) São muitos! Quero continuar criando projetos que impactem as pessoas de forma positiva e contribuir de forma cultural e intelectual em reflexões que são urgentes e precisam ser feitas no coletivo. Quero ser sempre uma ponte conectora de pessoas e projetos legais. Sonho em viver em uma sociedade plural, diversa, menos careta e em que todos já venham ao mundo com consciência de classe. E, ah, tirar um ano sabático para viajar e viver o nosso Brasil inteiro (risos).

6. Qual é a sua maior conquista?

Algumas mais recentes estão em pé de igualdade. Manter vivo o sonho desse maravilhoso cabaré contemporâneo que é o Love; viabilizar e realizar o feito histórico do hasteamento da bandeira LGBTQIA+ na fachada do MASP — iniciativa que rendeu ao Castro Festival o Prêmio Live 2025, principal reconhecimento de brand experience e live marketing da América Latina; fazer um festival para 15.000 pessoas e colocar um grande ídolo em um palco meu, o Ney Matogrosso; e o lançamento da minha própria agência de criação, produção e relacionamento, a Gira, que já veio ao mundo com grandes clientes e projetos.
Esta última é reflexo da minha maturidade profissional, das muitas cicatrizes que colecionei pelo caminho sendo mulher e empreendendo em um setor majoritariamente masculino, que é o do entretenimento. E, sobretudo, reflete como quero gerir meus negócios e trocar com as pessoas. Dar esse passo sozinha, na liderança executiva, foi importante demais para mim.
De modo geral, costumo celebrar todas as conquistas. Creio que a minha maior de todas é trilhar uma trajetória concisa, sem nunca atropelar meus valores, tirando sonhos e ideias malucas do papel e transformando-os em negócios reais, relevantes e sustentáveis. Tenho muito orgulho de construir espaços que acolhem a diversidade, a liberdade criativa e experiências que marcam as pessoas emocionalmente, pois fazer isso me marca também.

7. Livro, filme e mulher que você admira

Livros: Um Defeito de Cor (Ana Maria Gonçalves), O Mito da Beleza (Naomi Wolf), O Povo Brasileiro (Darcy Ribeiro), Tudo sobre o Amor (bell hooks), Discurso sobre a Servidão Voluntária (Étienne de La Boétie), Retratos do Brasil Negro (Lélia Gonzalez), A Máquina do Caos (Max Fisher) e A Divina Comédia (Dante Alighieri).
Filmes: Cinema Paradiso, The Rocky Horror Picture Show, O Poderoso Chefão, Star Wars e Moulin Rouge.
Mulher que admiro: Leila Pereira, presidente do Palmeiras. Adoro acompanhar as entrevistas dela, as coletivas, as respostas rápidas e as devoluções de desconforto. A Leila é inteligente, sagaz e tem um olhar muito humano. Ver uma mulher como ela prosperando, brilhando no comando de um império de negócios e quebrando várias barreiras é certamente uma grande inspiração.