Saville Alves - Mulheres Positivas

Saville Alves

Nossa Mulher Positiva é Saville Alves, empreendedora de impacto na SOLOS, negócio socioambiental que tem feito a reciclagem acontecer no Brasil de forma justa e inclusiva. Saville nos conta como iniciou sua trajetória e vem reafirmando a força feminina na economia circular inspirada pelo lema "Sonhar, criar e fazer acontecer"

1. Como começou a sua carreira?

Hoje olhando para trás, percebo que a minha formação como líder é a combinação de um conjunto de experiências que começaram na Primeira Infância, quando minha mãe me colocou em uma Escola Montessoriana, focada no desenvolvimento de crianças a partir da autonomia e aprendizado prático, e culminaram na minha entrada no curso Comunicação na Universidade Federal da Bahia, onde liderei o movimento de jovens empreendedores e iniciei minhas primeiras escolhas profissionais conscientes ao integrar áreas corporativas da Oi SA e Braskem.
Como a contradição sempre foi algo que despertou o meu interesse, entendi que precisava completar minhas visões de mundo através de uma participação consistente em organizações do terceiro setor, na área de habitação social, e assim integrei o time da ONG TETO, e da ARCAH. Hoje sou sócia fundadora da SOLOS, onde empreender com intencionalidade pra fazer a reciclagem ser bom para todo mundo.

2. Como é formatado o modelo de negócios da SOLOS?

A SOLOS é um negócio de impacto socioambiental, focado em levar soluções para que grandes marcas, como Ambev, iFood e Braskem, possam oferecer para a população alternativas para o descarte correto, sobretudo de embalagens pós consumo. Nossas ações vão desde oficinas e programas de conscientização e transformação de percepção sobre a importância da reciclagem e circularidade, até iniciativas estruturantes de coleta seletiva, com a instalação de ecopontos, contratação de cooperativas de catadores e realização de coleta porta a porta. Assim conseguimos apoiar o poder público, que é um parceiro estratégico, a iniciar ações de circularidade nas cidades, trazemos a capacidade de escala e inovação das grandes indústrias, que são nossas clientes, e geramos impacto relevante em conjunto com catadoras e catadores. Ao longo desses 8 anos, já coletamos mais de 2,5 mil toneladas de resíduos e alcançamos mais de 10 milhões em renda gerada para os atores mais vulneráveis da da reciclagem no Brasil.

3. Qual foi o momento mais difícil da sua carreira?

O momento mais difícil ainda está por vir. À medida que o negócio cresce e ganha mais relevância, os desafios vão ficando maiores. Quando eu comecei a SOLOS, o meu maior obstáculo era ter disciplina para usar o meu tempo construindo algo que ainda era muito abstrato. Eu precisava criar conceito do zero, solução sem caso prático, ferramentas de gestão sem resultados e persistir nas agendas de prospecção com clientes que “adoravam a ideia”, mas não queria pagar por ela. De lá para cá, a consistência, compromisso com resultados, consolidação de uma boa reputação e a criação de uma boa rede têm feito a SOLOS ser um dos principais empreendimentos de impacto na área de reciclagem e inclusão social e produtiva no Brasil e como não queremos parar por aqui, temos nos preparado como time para lidar com as conquistas e novos desafios que poderemos nos deparar.

4. Como você consegue equilibrar sua vida pessoal x vida corporativa/empreendedora?

Quando eu li Marx pela primeira, um dos conceitos que mais me chamou a atenção foi o de "intercâmbio metabólico", em que ele defende que o trabalho não é apenas uma atividade social ou um meio de ganho econômico, mas um elo de desenvolvimento da relação do sujeito com a natureza. E a minha sensação quando eu o li foi que "finalmente alguém sintetizou em palavras o meu sentimento”. Trabalhar na SOLOS tem feito com que eu tenha a possibilidade de ser estimulada a expressar e consolidar a minha identidade, minhas ideias, minhas emoções. Então ao invés de buscar sair desse ambiente, eu tenho me questionado a entender “como integrar todos esses ambientes que eu circulo?”; “como trazer coerência para minhas decisões em todas as esferas?”, “ como o meu trabalho reflete as minhas escolhas, como estilo de vida, o tipo de gente que me relaciono, os lugares que frequento, as coisas que consumo?”.
Se você estabelece uma relação de coerência e autoconhecimento, você consegue lidar melhor com as fases, que pode ora ser de maior dedicação ao trabalho, ora de maior dedicação às outras frentes da vida.

5. Qual seu maior sonho?

Ter saúde da mente e corpo para continuar sendo uma pessoa agitada, de pensamentos serenos para aproveitar a vida na sua integridade, onde a sustentabilidade seja para e por todos.

6. Qual sua maior conquista?

A SOLOS é a minha grande conquista. Ter tirado do papel uma ideia que parecia inocente e ter transformando-a em um empreendimento que tem ações reais e intencionais para transformar lixo em parte da solução é um motivo de grande orgulho. Esse trabalho me gera confiança, estimula o meu aprendizado e me faz ter trocas com pessoas diversas e interessantes.

7. Livro, filme e mulher que admira

Eu acho que boas empreendedoras precisam ter uma visão bem próxima do que é o Brasil e as intersecções com a geopolítica. Então indico uma boa literatura das intelectuais nada caretas: Clarice Lispector e Lélia Gonzalez.