Carla Góes - Mulheres Positivas

Carla Góes

Nossa Mulher Positiva é Dra. Carla Góes, médica e fundadora do Instituto Um Novo Olhar. Dra. Carla nos conta como iniciou sua trajetória na medicina, o que a motivou a criar o projeto e como acredita que informação e acolhimento são essenciais para apoiar mulheres vítimas de violência doméstica e ajudá-las a reconstruir suas vidas.

1. Como começou a sua carreira?

Eu cursei a faculdade de medicina em Salvador e me formei aos 24 anos e logo vim para São Paulo fazer residência médica na equipe do professor Henrique Walter Pinotti, pensei em fazer todos os anos de residência e voltar para Salvador, mas essa cidade recebe muito bem as pessoas que estão dispostas a se dedicar ao crescimento e o seu propósito. E foi realmente aqui que eu fui me tornando a profissional que eu sou hoje.

2. Como funciona o modelo de negócios do Instituto Um Novo Olhar?

O Instituto Um Novo Olhar é o trabalho de uma vida. Desde a minha infância no interior da Bahia, em Itabuna eu acompanhava a minha avó Carmem nos cuidados as pessoas que precisavam de apoio, alimentação, um banho, uma sopa quente no final do dia, e cresci com esse olhar ao próximo. Quando estava na residência médica, comecei um trabalho social chamado “ Mãezinhas de Rua” que oferecia orientações sobre alimentação, vacinas, acompanhamento no pré-natal e no final de cada mês ia sendo montado o enxoval do bebê. Foi quando eu percebi a vulnerabilidade dessas meninas e mulheres que estavam grávidas e moravam nas ruas de São Paulo, então tive contato com as dores dessas mulheres.
Vi a violência nas ruas mesmo em gestantes e percebi o quanto era importante ter um trabalho voltado para as mulheres em geral. Mantive o trabalho com atendimentos esporádicos na minha clínica e em 2018 formei um grupo de mulheres voluntárias na aérea de advocacia, psicologia e assistente social, para atender um número que só crescia de mulheres vítimas de violência doméstica.
Hoje, o Instituto Um Novo Olhar está situado em Pinheiros e oferece um trabalho totalmente gratuito, para as mulheres vítimas de violência doméstica e seus filhos. Nós temos um canal de atendimento no WhatsApp que apenas com um simples oi a mulher pode solicitar atendimento. Ela vai receber um link que após ser respondido umas de nossas assistentes sociais irá entrar em contato para realizar o acolhimento encaminhar para psicologia ou orientação jurídica e mesmo assistente social. Nos casos de violência física com lesões faciais, a mulher é direcionada para uma consulta médica que é realizada com objetivo de avaliar lesões e começar um processo de reconstrução facial.
Em 2021 o Instituto Novo Olhar, em parceria com Instituto de Psiquiatria do HC, através de uma emenda parlamentar direcionada através da deputada federal Maria Rosas, criou o primeiro ambulatório de saúde mental para mulheres vítimas de violência e seus filhos, assim também para idosos vítimas de violência. As cirurgias de grande porte com necessidade de anestesia geral internação hospitalar começou em parceria com a Prevent sênior e hoje já realizamos algumas cirurgias de reconstrução facial com profissionais do hospital das Clínicas.
O Instituto também criou a cartilha “Basta! de violência” que é distribuída gratuitamente os metrôs de São Paulo onde nossa equipe explica como pedir e através de um QR Code a mulher pode ter acesso a todas as informações da cartilha, onde explicamos o que é violência doméstica como detectar os primeiros sinais como pedir ajuda. Muitas mulheres se reconhecem como vítimas tendo acesso às informações da cartilha, pois muitas vezes está até em um relacionamento abusivo e não sabia.
Trabalhamos também através dessa cartilha o combate e prevenção à violência. Mantemos atendimento semanais de psicologia presencial e on-line e quando necessário encaminhamos para a equipe de psiquiatria do Hospital das clínicas. Vejo hoje a importância de estarmos nas escolas fazendo todo um trabalho de prevenção desde a infância.

3. Qual foi o momento mais difícil da sua carreira?

Acredito, que o momento mais difícil foi me manter firme nos primeiros anos de residência de cirurgia do aparelho digestivo onde era um universo  totalmente masculino e difícil e depois conquistar a  credibilidade e amizade dos meus pacientes.

4. Como você consegue equilibrar sua vida pessoal x vida corporativa/empreendedora?

Eu tenho o privilégio de trabalhar com o que eu gosto e me realiza. Quando meus filhos nasceram era muito puxado amamentar, dar muito plantão e longas horas de cirurgia, ser mãe, esposa e sempre consciente da importância do exemplo pros meus filhos. Eu só acredito na força do trabalho e passei isso pra eles com alegria. Com certeza em algum momento chorei por não conseguir não ter família aqui e perder o ballet na escola, o jogo de futebol importante, mas vejo que a qualidade do tempo também é muito importante. Hoje meus filhos são adultos e meus melhores amigos.

5. Qual seu maior sonho?

Sensibilizar a nossa sociedade para um tema de saúde pública que é a Violência Doméstica, tirar esse debaixo do tapete e levar para as escolas a prevenção através de matérias sobre empatia, misoginia e violência contra as mulheres.

6. Qual sua maior conquista?

⁠Ter chegado até aqui com muita retidão, com saúde e uma família que amo e ainda ter tido a oportunidade de escrever 6 livros, sendo o último escrito com o corpo clínico do Hospital das clínicas, pela Ed Manole. Nesse livro abordamos a Violência doméstica, “Detecção, orientação e proteção”.

7. Livro, filme e mulher que admira

Livro: “O poder é Seu” (esse eu escrevi), e o livro “As 48 leis do Poder”
Filme: Coração Valente
Mulher que admira: ⁠Fernanda Torres