Nossa Mulher Positiva é Saville Alves, empreendedora de impacto na SOLOS, negócio socioambiental que tem feito a reciclagem acontecer no Brasil de forma justa e inclusiva. Saville nos conta como iniciou sua trajetória e vem reafirmando a força feminina na economia circular inspirada pelo lema "Sonhar, criar e fazer acontecer"
Hoje olhando para trás, percebo que a minha formação como líder é a combinação de um conjunto de experiências que começaram na Primeira Infância, quando minha mãe me colocou em uma Escola Montessoriana, focada no desenvolvimento de crianças a partir da autonomia e aprendizado prático, e culminaram na minha entrada no curso Comunicação na Universidade Federal da Bahia, onde liderei o movimento de jovens empreendedores e iniciei minhas primeiras escolhas profissionais conscientes ao integrar áreas corporativas da Oi SA e Braskem.
Como a contradição sempre foi algo que despertou o meu interesse, entendi que precisava completar minhas visões de mundo através de uma participação consistente em organizações do terceiro setor, na área de habitação social, e assim integrei o time da ONG TETO, e da ARCAH. Hoje sou sócia fundadora da SOLOS, onde empreender com intencionalidade pra fazer a reciclagem ser bom para todo mundo.
A SOLOS é um negócio de impacto socioambiental, focado em levar soluções para que grandes marcas, como Ambev, iFood e Braskem, possam oferecer para a população alternativas para o descarte correto, sobretudo de embalagens pós consumo. Nossas ações vão desde oficinas e programas de conscientização e transformação de percepção sobre a importância da reciclagem e circularidade, até iniciativas estruturantes de coleta seletiva, com a instalação de ecopontos, contratação de cooperativas de catadores e realização de coleta porta a porta. Assim conseguimos apoiar o poder público, que é um parceiro estratégico, a iniciar ações de circularidade nas cidades, trazemos a capacidade de escala e inovação das grandes indústrias, que são nossas clientes, e geramos impacto relevante em conjunto com catadoras e catadores. Ao longo desses 8 anos, já coletamos mais de 2,5 mil toneladas de resíduos e alcançamos mais de 10 milhões em renda gerada para os atores mais vulneráveis da da reciclagem no Brasil.
O momento mais difícil ainda está por vir. À medida que o negócio cresce e ganha mais relevância, os desafios vão ficando maiores. Quando eu comecei a SOLOS, o meu maior obstáculo era ter disciplina para usar o meu tempo construindo algo que ainda era muito abstrato. Eu precisava criar conceito do zero, solução sem caso prático, ferramentas de gestão sem resultados e persistir nas agendas de prospecção com clientes que “adoravam a ideia”, mas não queria pagar por ela. De lá para cá, a consistência, compromisso com resultados, consolidação de uma boa reputação e a criação de uma boa rede têm feito a SOLOS ser um dos principais empreendimentos de impacto na área de reciclagem e inclusão social e produtiva no Brasil e como não queremos parar por aqui, temos nos preparado como time para lidar com as conquistas e novos desafios que poderemos nos deparar.
Quando eu li Marx pela primeira, um dos conceitos que mais me chamou a atenção foi o de "intercâmbio metabólico", em que ele defende que o trabalho não é apenas uma atividade social ou um meio de ganho econômico, mas um elo de desenvolvimento da relação do sujeito com a natureza. E a minha sensação quando eu o li foi que "finalmente alguém sintetizou em palavras o meu sentimento”. Trabalhar na SOLOS tem feito com que eu tenha a possibilidade de ser estimulada a expressar e consolidar a minha identidade, minhas ideias, minhas emoções. Então ao invés de buscar sair desse ambiente, eu tenho me questionado a entender “como integrar todos esses ambientes que eu circulo?”; “como trazer coerência para minhas decisões em todas as esferas?”, “ como o meu trabalho reflete as minhas escolhas, como estilo de vida, o tipo de gente que me relaciono, os lugares que frequento, as coisas que consumo?”.
Se você estabelece uma relação de coerência e autoconhecimento, você consegue lidar melhor com as fases, que pode ora ser de maior dedicação ao trabalho, ora de maior dedicação às outras frentes da vida.
Ter saúde da mente e corpo para continuar sendo uma pessoa agitada, de pensamentos serenos para aproveitar a vida na sua integridade, onde a sustentabilidade seja para e por todos.
A SOLOS é a minha grande conquista. Ter tirado do papel uma ideia que parecia inocente e ter transformando-a em um empreendimento que tem ações reais e intencionais para transformar lixo em parte da solução é um motivo de grande orgulho. Esse trabalho me gera confiança, estimula o meu aprendizado e me faz ter trocas com pessoas diversas e interessantes.
Eu acho que boas empreendedoras precisam ter uma visão bem próxima do que é o Brasil e as intersecções com a geopolítica. Então indico uma boa literatura das intelectuais nada caretas: Clarice Lispector e Lélia Gonzalez.