Nossa Mulher Positiva é Graziela Jurça Fanti, advogada, mestra pela USP e sócia-fundadora do JFAC. Sua atuação se concentra no Direito Penal e no Direito de Família, com foco em casos de alta complexidade, especialmente aqueles que envolvem mulheres e pessoas LGBTQIAPN+.
Eu costumo dizer que minha trajetória profissional começou muito antes da faculdade, porque eu venho de uma família bastante matriarcal. Então, os debates sobre gênero, autonomia feminina e desigualdade sempre fizeram parte da minha vivência de alguma forma.
Quando entrei na Faculdade de Direito da USP, esse olhar ganhou um contorno mais político. Durante a graduação, comecei a atuar no Departamento Jurídico XI de Agosto, entidade ligada à faculdade que presta assistência jurídica gratuita para pessoas em situação de vulnerabilidade. Foi lá que comecei a atender mulheres em situação de violência doméstica, uma pauta que rapidamente se tornou central para mim.
Ao longo de toda a faculdade, eu me dediquei muito a esse trabalho e fui entendendo cada vez mais qual advocacia fazia sentido para mim.
Depois de formada, tentei seguir o caminho mais tradicional e trabalhei por cerca de um ano em sociedade com um escritório. Mas não funcionou muito bem, principalmente porque eu tinha um perfil de atuação e de captação muito diferente dos outros sócios. Enquanto o escritório era voltado para um público empresarial, majoritariamente masculino e mais conservador, muitas mulheres procuravam especificamente por mim para serem atendidas.
Foi isso que acabou me impulsionando a abrir meu próprio escritório. No começo, sinceramente, era muito mais uma tentativa de sobreviver profissionalmente do que um grande plano estruturado. Mas cerca de três meses depois, quando olhei para minha carteira de clientes, percebi que ela era formada quase exclusivamente por mulheres e pessoas LGBTQIAPN+.
Ali eu entendi que aquilo não era uma coincidência: existia uma demanda reprimida por uma advocacia em que essas pessoas se sentissem efetivamente acolhidas e compreendidas. Foi quando decidi nichar o escritório de forma consciente.
Hoje, somos o maior escritório do estado de São Paulo com atuação voltada exclusivamente para mulheres e pessoas LGBTQIAPN+, embora atendamos a clientes em todo o Brasil e também a brasileiras que vivem no exterior.
Acho que o momento mais difícil da minha carreira foi quando precisei pedir uma medida protetiva bastante incisiva para mim mesma, depois de ser ameaçada de morte pelo agressor de uma cliente que eu representava.
Foi um momento muito duro porque, pela primeira vez, eu senti na prática o quanto esse trabalho também nos atravessa pessoalmente. Atuar com violência de gênero significa, muitas vezes, enfrentar pessoas extremamente violentas e lidar com estruturas que ainda tentam silenciar mulheres — inclusive as mulheres que as defendem.
Naquele momento, eu coloquei muita coisa em xeque: o risco da profissão, o peso emocional da advocacia e até onde eu estava disposta a ir. Mas, depois de atravessar isso, eu entendi que o meu propósito é maior do que o medo.
Hoje, essa experiência também reforça a forma como eu enxergo minhas clientes. Porque eu sei, na prática, o que significa viver sob ameaça e precisar que o sistema funcione para nos proteger.
Eu ainda acho que o equilíbrio é muito mais uma construção diária do que um estado permanente, principalmente para mulheres empreendedoras. Existe uma expectativa social de que a mulher consiga dar conta de tudo ao mesmo tempo: trabalho, cuidado, afeto, disponibilidade emocional, família, relacionamento, corpo, performance… e quase sempre colocando as necessidades dos outros na frente das próprias.
Acredito que a perspectiva de gênero aparece muito aí. Mulheres são ensinadas desde cedo a cuidar, mas não necessariamente a se cuidar. E isso tem um impacto enorme, inclusive na forma como a gente trabalha e empreende. Muitas vezes, o excesso de responsabilidade e a dificuldade de estabelecer limites acabam sendo romantizados como força ou competência.
Então, para mim, equilibrar vida pessoal e profissional passou por entender que descanso não é improdutividade e que o autocuidado não pode ser tratado como recompensa depois da exaustão.
Hoje, eu tento construir uma rotina que preserve espaços de vida fora do trabalho: terapia, pesquisa acadêmica, viagens, momentos com pessoas que amo e projetos pessoais, como o podcast. Também aprendi que liderar uma empresa de forma saudável exige delegar, confiar na equipe e entender que um negócio não pode depender exclusivamente da fundadora para funcionar.
Meu maior sonho já está em curso. No segundo semestre, vamos publicar um livro sobre os 20 anos da Lei Maria da Penha, prefaciado pela própria Maria da Penha, o que, para mim, tem um significado muito profundo.
O livro mescla artigos científicos com relatos autorais, justamente porque eu acredito muito na importância de aproximar a produção acadêmica da vida real. Minha trajetória sempre transitou entre a pesquisa, a advocacia e a escuta de mulheres em situações extremamente complexas, então fazia sentido construir uma obra que também refletisse isso.
Mais do que uma conquista profissional, esse projeto representa a possibilidade de transformar experiência prática, pesquisa e vivência em algo que possa gerar debate, conscientização e impacto social, especialmente nas discussões sobre violência de gênero, proteção de mulheres e direitos humanos.
Também vejo esse livro como parte de um propósito maior: construir uma advocacia e uma produção acadêmica que não sejam distantes das pessoas, mas que consigam efetivamente atravessar a sociedade e provocar transformação.
Minha maior conquista foi conseguir construir um espaço profissional coerente com quem eu sou e com aquilo em que acredito.
Quando abri o escritório, não existia um grande planejamento de expansão ou uma estrutura consolidada. Era, inicialmente, uma forma de sobreviver profissionalmente sem abrir mão da advocacia que eu queria exercer. Mas, com o tempo, percebi que existia uma demanda muito real de mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ por uma atuação jurídica em que elas se sentissem verdadeiramente representadas.
Hoje, olhar para o fato de que nos tornamos o maior escritório do estado de São Paulo voltado exclusivamente para mulheres e pessoas LGBTQIAPN+, atendendo a clientes em todo o Brasil e até no exterior, é algo que me emociona muito, especialmente porque isso foi construído sem abrir mão de posicionamento, de humanidade e de propósito.
Também considero uma grande conquista ter conseguido conciliar essa construção com a pesquisa acadêmica e com uma atuação voltada para o impacto social — no ano passado, terminei meu mestrado na Faculdade de Direito da USP pesquisando justamente sobre as dinâmicas de violência doméstica dentro de movimentos de moradia. Para mim, sucesso nunca foi só crescimento financeiro ou reconhecimento profissional. Sempre teve muito mais relação com conseguir construir algo que faça sentido ética e humanamente.
Livro: “Mulheres, Raça e Classe”, da Angela Davis. Foi uma obra muito importante para a minha formação porque me ajudou a entender como gênero, classe e raça atravessam as relações sociais e o próprio sistema de justiça.
Filme: “Barbie”. É interessante como o filme conseguiu transformar discussões complexas sobre gênero em algo acessível e popular, especialmente sobre a pressão estética, a sobrecarga feminina e a expectativa de que as mulheres consigam performar múltiplos papéis o tempo inteiro sem falhar. Tem uma frase no filme que me marcou muito, sobre ser praticamente impossível ser mulher e corresponder a todas as expectativas impostas socialmente. E isso conversa muito com o que eu vejo diariamente, tanto na advocacia quanto na vida pessoal: mulheres que cuidam de todo mundo, sustentam relações, trabalho, família e, ainda assim, sentem culpa quando escolhem cuidar de si mesmas.
Mulher que admiro: Shonda Rhimes. Eu admiro muito a capacidade dela de construir narrativas protagonizadas por mulheres complexas, inteligentes, contraditórias e humanas, sem reduzir personagens femininas a estereótipos. Acho que ela conseguiu ocupar um espaço de enorme relevância na indústria do entretenimento sem abrir mão de discutir poder, gênero, raça e vulnerabilidade de uma forma muito acessível.