Nossa Mulher Positiva é Rebeca Macedo, brasileira que saiu do mundo corporativo no auge da carreira porque percebeu que sucesso sem consciência emocional é vazio. Especialista em inteligência emocional, empresária e autora do livro ¿Cómo se llama eso que sientes?, lançado na Colômbia em 2025 com grande repercussão na comunidade latina, Rebeca construiu uma metodologia que já impactou milhares de pessoas ensinando algo simples e transformador: quando você aprende a nomear o que sente, a emoção perde o poder sobre você. Radicada nos Estados Unidos, ela une estratégia empresarial e saúde emocional para ajudar pessoas, líderes e organizações a tomarem decisões mais conscientes, humanas e lucrativas — e se prepara para trazer essa mensagem ao Brasil em 2026.
Minha trajetória começou no mundo corporativo, atuando em multinacionais e liderando áreas estratégicas por mais de 16 anos. Tenho formação na PUC/SP, Harvard e FCU Florida. Sempre fui movida por resultados, estrutura e crescimento — adoro um bom desafio.
Mas houve um momento que mudou tudo. Estávamos numa reunião de alto nível com um comprador global — uma conta importantíssima. Houve um ruído na reunião — uma falha de comunicação que escalou rapidamente e quase custou o contrato inteiro. A tensão na sala era cortante e o contrato estava em risco.
O que salvou a conta não foi o produto. Foi o relacionamento. Eu e aquele comprador tínhamos construído ao longo do tempo um vínculo que ia muito além da negociação — ele compartilhava desafios de outras áreas, eu ajudava com soluções, havia uma confiança genuína e colaborativa. Por causa disso, ele seguiu com a homologação.
Naquele dia entendi duas coisas que carrego até hoje: que a falta de inteligência emocional pode destruir em minutos o que levou anos para construir — e que ‘a venda não é gerada pelo produto, mas pelo valor entregue na relação’. Hoje, quando trabalho com líderes e equipes, essa história está sempre presente. Porque o que quase perdemos naquele dia não era uma conta — era uma relação. E relações se constroem com inteligência emocional.
Gosto de dizer que minha missão é organizar o caos — seja o burocrático ou o emocional das pessoas. Na prática, isso se traduz em duas frentes que, olhando de fora, parecem diferentes. Por dentro, carregam a mesma essência.
O Cartório USA Brasil resolve o caos documental de brasileiros que vivem ou fazem negócios fora do país — autenticações, apostilas, serviços internacionais, com presença nos EUA, Canadá e Europa. Mas vai além da burocracia. Ser expatriado já envolve muitas questões emocionais — manter documentos ativos em dois mundos é pesado. Nossa equipe é treinada para entender que cada problema resolvido representa uma família amparada e tranquila. Somos pessoas lidando com pessoas.
E isso se reflete até em como construí meu time: a maioria são mulheres, chefes de família com filhos pequenos. Trabalhamos com horários flexíveis porque acredito que o que importa é a entrega, não o tempo contínuo. Quero que elas possam ser mães e profissionais sem precisar escolher entre um e outro.
Já o Aroma de Emociones resolve outro tipo de caos: o interno. Já acompanhei desde executivas que não conseguiam dormir até pessoas que não entendiam por que se sentiam vazias mesmo tendo tudo. O que tinham em comum? Não sabiam nomear o que sentiam. E quando aprenderam, tudo mudou. É por isso que desenvolvo conteúdo — artigos no jornal El Tiempo e na Acontece Magazine, podcast, livro e uma comunidade ativa — além de treinamentos corporativos e workshops. Porque quando você nomeia uma emoção, ela perde o poder sobre você.
Foi quando cheguei ao ponto máximo da minha carreira corporativa — gerente da operação Brasil em uma das maiores multinacionais da América Latina no setor. Salário incrível, reconhecimento, acesso a tudo. Era exatamente onde eu havia planejado chegar.
E foi justamente aí que veio o vazio.
Percebi que por mais que minha formação fosse sólida — controladoria, finanças, transfer price, fiscal — o que eu realmente amava eram as pessoas dentro da organização. Sempre acreditei que o maior ativo de uma empresa é humano. E me dava um desespero silencioso ver tantos talentos sendo mal aproveitados não por falta de capacidade, mas por falta de liderança com inteligência emocional. Recursos desperdiçados. Potencial bloqueado. E ninguém falando sobre isso.
O momento mais difícil foi tomar a decisão que veio depois: ainda no cargo, com toda a responsabilidade que ele exigia, iniciei uma jornada paralela rumo ao que eu realmente queria. Busquei os melhores — Augusto Cury, Tony Robbins, John Maxwell — todos que conectavam com o que eu já acreditava, mas ainda não sabia nomear. E abri minha primeira empresa de treinamento em inteligência emocional para corporações, ainda no Brasil.
Difícil não foi o vazio. Difícil foi ter coragem de agir enquanto ainda estava no topo. Porque ninguém entende por que alguém deixa o sucesso. Mas eu sabia que ficar seria o maior fracasso.
Eu não busco equilíbrio perfeito — busco consciência. E aprendi isso do jeito mais difícil.
Cheguei a ter cinco empresas simultaneamente e ainda era vice-presidente de uma ONG. Acordava cedo, não parava o dia inteiro e chegava à noite com a sensação de não ter feito nada. Aquela armadilha que a cultura moderna prega: quanto mais ocupada, mais produtiva. Até que meu corpo disse basta — tive burnout.
Foi quando entendi que não somos feitas para multitarefas. Isso não é fraqueza, é biologia. A superestimulação constante não nos torna mais eficientes — nos esvazia. Tomei uma decisão que muita gente achou estranha: diminuí o ritmo. Fiquei com dois negócios — os que conectam minha alma — e aprendi a dividir meus dias com foco em uma coisa por vez, com qualidade e presença.
Tem um filme chamado “Click” em que o personagem vai acelerando a vida no controle remoto e quando percebe, perdeu tudo que importava. Me vi nessa história. Quando você vai sempre correndo, não vê a graça do que passa.
Hoje tenho um ritual diário que não abro mão: pausas conscientes com respiração, onde nomeio o que estou sentindo naquele momento. É o que me mantém inteira, presente e capaz de construir com propósito. Hoje entendo que presença vale mais que produtividade. E que ser gentil com o que sinto não é luxo — é a base de tudo que construo.
Sonho que um dia toda criança aprenda a nomear suas emoções antes de aprender a escondê-las. Que inteligência emocional seja ensinada nas escolas como matéria fundamental — não como luxo, mas como ferramenta essencial de vida.
Esse sonho começou em casa. Quando minha filha era pequena, eu já liderava equipes em uma multinacional e participava de processos seletivos. E percebi algo que me marcou: os profissionais de mais sucesso raramente eram os primeiros da turma. Eram os que tinham mais habilidades humanas — empatia, escuta, presença. Foi aí que decidi que não cobraria minha filha por resultado. Potencializei nela o que acreditava ser mais importante: línguas, artes, relações, pessoas.
Sempre ensinei a ela que a maior competição é consigo mesma — não com os outros. Não estou falando de ignorar a excelência, mas de entender que uma escala de primeiro e segundo num momento da vida não define quem você será. O que define são as relações que você cultiva, a forma como trata as pessoas, o que você constrói com o que tem. Medalhas ficam na gaveta. Relações constroem vidas.
Lembro com muito orgulho que nas reuniões de pais, os elogios que recebia sobre ela não eram somente sobre notas. Eram sobre a nobreza com que tratava a todos — das professoras às pessoas da limpeza e da segurança. Para mim, esse foi o maior resultado que eu poderia ter alcançado como mãe.
Quero uma nova geração de líderes que entendam que inteligência emocional não é fragilidade — é estratégia. Que empresas prosperem sem adoecer pessoas. E que cada pessoa tenha ferramentas para viver com mais clareza e liberdade emocional.
E em termos concretos: estou muito animada com o lançamento do meu livro no Brasil em 2026, em português. Levar essa mensagem para o meu país de origem, na minha língua materna, é um sonho que está prestes a se tornar realidade.
Transformar minha vulnerabilidade em ferramenta de impacto. Mas deixa eu te contar como isso se traduziu na prática.
No mundo corporativo, uma das conquistas que mais me orgulha foi ser escolhida para liderar o processo de cultura organizacional de uma multinacional a nível mundial — avaliar pessoas em recursos humanos em todos os países, preparando a organização para uma mudança profunda: sair de uma liderança centralizada para uma liderança corporativa descentralizada. Em paralelo, coordenei a implantação do SAP em toda a empresa e depois gerenciei o Roll Out no Brasil.
Foi um sucesso. Mas não porque o sistema era bom — porque primeiro trabalhamos as pessoas. Essa experiência foi um dos maiores comprovantes de algo que já acreditava: quando você prepara emocionalmente uma organização para a mudança, a técnica flui. Quando você ignora as pessoas e implanta só o processo, tudo trava.
Mas minha maior conquista pessoal tem nome e sobrenome — é minha filha. Quando ela me olha e diz: "Mãe, muitas coisas que meus professores ensinam você já tinha me ensinado antes" — essa validação vale mais que qualquer prêmio. Porque é fácil parecer bonito da porta para fora. Difícil é ser admirada por quem te conhece de verdade, nos dias bons e nos difíceis. Essa é minha essência.
E cada vez que alguém me para e diz "agora eu consigo nomear o que sinto" — seja um executivo, um jovem ou uma mãe — entendo que estou no lugar certo, fazendo o que vim fazer. Isso não tem preço.
Livro: A Coragem de Ser Imperfeito, de Brené Brown. Foi um divisor de águas na forma como entendo vulnerabilidade e autenticidade. Eu achava que precisava ter todas as respostas para ser levada a sério — esse livro me mostrou que a vulnerabilidade bem colocada é a forma mais poderosa de conexão.
Filme: Comer, Rezar, Amar. Mais do que uma história de recomeço, esse filme me lembrou que não somos fixos — somos muitas versões ao longo da vida. Aquilo que fez sentido num momento pode não sustentar mais no seguinte. E está tudo bem. A maior coragem não é aguentar o que já não serve — é se permitir ser uma versão nova de si mesma sem culpa e sem medo do julgamento dos outros.
Mulher que admiro: Oprah Winfrey — e confesso que ela é mais que uma inspiração, é um espelho. Porque um dia eu fui uma menina no interior do Ceará que esperava o caminhão do Natal para ter uma roupa nova para usar no fim do ano. E em outro momento da vida tive a bênção de abrir uma ONG nos Estados Unidos a ‘Alliace of Mercy’ e ser a pessoa que liderava e apoiava na captação de recursos internacionais para que crianças no Brasil, na Venezuela e em Moçambique tivessem oportunidades melhores.
Oprah não me inspira pelo sucesso — me inspira porque ela nunca escondeu de onde veio. Expôs sua vulnerabilidade sem perder o foco e transformou sua própria história em plataforma para dar voz a outras pessoas. É o que eu quero fazer. Ser a versão latina dessa mulher — não para copiar, mas para provar que origens humildes não limitam destinos extraordinários.